Zezinho, o malcriado - Peça em um ato (início)

Personagens

ROBERTA
MAURO
MULHER
MARIDO

(Cenário: um quintal de uma casa com uma varanda e cercas de arame delimitando o terreno.)

(O casal está sentado na varanda. Mauro lê e Roberta vê umas fotos.)

ROBERTA — Ficaram ótimas. Acho que vou mandar pro concurso.

MAURO — O Zulinho sempre fica bem nas fotos, né?

ROBERTA — Ah, ele é muito fotogênico. É tão lindo!

MAURO — Você já descobriu quem é a nova namorada do nosso ilustre vizinho?

ROBERTA (guardando as fotos no envelope) — Você quer dizer quem são as novas namoradas do Adelmo, né?

MAURO — Não, eu tô falando daquela de ontem, que tava com ele aí à tarde.

ROBERTA — Aquela eu não sei quem é, não deu pra ver a cara. Mas acho que não é a mesma que tava com ele naquela noite aí na varanda, lembra?

MAURO — Aquela que a gente ficou espiando escondido aqui no quintal?

ROBERTA — É, essa mesmo.

MAURO — Como que você sabe que não é a mesma?

ROBERTA — Porque o Adelmo traz todo dia uma mulher diferente.

MAURO — Eu acho que tem umas que ele repete.

ROBERTA — Ah, é? Já que você está tão interessado na vida sexual e amorosa do nosso vizinho, por que você não pergunta pra ele?

MAURO — Perguntar como, Roberta?

ROBERTA — Ué, conversa de homem: “E aí Adelmo, tá comendo quem?”

MAURO — Mas eu não tenho essa intimidade.

ROBERTA — Eu é que não tenho!

(Mauro levanta da cadeira e olha em direção à casa do vizinho.)

MAURO — Olha lá o gato do Adelmo. Está deitadão na varanda... De novo.

ROBERTA — Ai, Mauro, esse gato só sabe fazer isso!

MAURO — Ele parece o Garfield.

ROBERTA — Pelo menos o Garfield não mia de madrugada, nem fica entrando na nossa cozinha.

MAURO — Pior é quando ele mexe nas caixas.

ROBERTA — Já pensou se ele mija lá dentro?

MAURO — É... não adiantou nada essa cerca aí no quintal.

ROBERTA — E essa cerca foi tão cara... Mauro, quantos metros precisava ter a cerca pro gato não pular?

MAURO — Bem... considerando que o Garfield tenha cinco quilos de peso e ele pule a uma altura de dois metros, então seu impulso será de...

ROBERTA — E se a cerca fosse eletrificada?

MAURO — Bem... uma cerca elétrica comum tem uma tensão de oito mil volts e uma corrente elétrica de...

ROBERTA — Mas não é só pra dar choquinho. É pra matar mesmo!

MAURO — Pro gato morrer, a cerca precisaria ser 20 vezes mais...

ROBERTA — Ótimo, amanhã mesmo vou providenciar.

MAURO — Mas Roberta, se o gato morre na nossa cerca...

ROBERTA — A culpa foi do gato.

MAURO — O Adelmo pode nos processar.

ROBERTA — E se a gente chamasse o Ibama?

MAURO — O Ibama só apreende os animais silvestres da fauna brasileira que não são registrados.

ROBERTA — A gente fala que o Garfield é uma jaguatirica. (Olhando para a casa do vizinho.) Não adianta deixar a frente da casa aberta, o gato entra pela garagem. Tinha que cercar a casa toda.

MAURO — Não tem como, Rô. Isso aqui é um condomínio fechado, eles não deixam.

ROBERTA — E os bichos vão entrando. Lembra do lagarto gigante que entrou na nossa sala?

MAURO — Pô, Roberta, até que o lagarto era simpático. Não deu trabalho nenhum, só foi eu chegar perto dele, que ele correu. E além do mais ele está no habitat natural dele.

ROBERTA — Ah, é? A sala da nossa casa agora é habitat de lagarto gigante? E aquela cobra coral que entrou na nossa piscina?

MAURO — Você se apavora à toa. Aquele dia sim podíamos ter chamado o Ibama...

ROBERTA — É, e eu ia ficar olhando pra cobra enquanto esperava o Ibama chegar? Eu quase tive um treco esperando o segurança do condomínio tirar aquela cobra nojenta daqui. Ai, não gosto nem de lembrar! Bicho tinha que ficar tudo no zoológico! (Olhando novamente para a casa do vizinho.) Qualquer dia eu pego esse gato de jeito! Mas eu já sei o que eu vou fazer se ele aparecer de novo. Vou pegar essas pedras aqui do quintal e vou jogar nele.

MAURO — Vê lá, hein, Roberta! Não quero confusão com vizinho.

ROBERTA (espreguiçando-se) — Ai, ai, hoje é sábado, não quero me estressar. Está um dia lindo, sem lagartos gigantes, sem cobras corais entrando na piscina e sem gatos intrometidos...

(Ouve-se uma gritaria.)

MAURO — Que isso?

ROBERTA — Eu vou ver o que é.

(Roberta sai. Toca o telefone na varanda. Mauro atende.)

MAURO — Alô? É daqui sim. Quem? Ah, tudo bem. (Põe o fone no gancho.)

(Enquanto Mauro fala ao telefone, Roberta joga umas pedras na direção da cerca. A gritaria acaba e Roberta volta para a varanda.)

MAURO — Ligou uma mulher aí perguntando se a gente viu o filho dela.

ROBERTA — Que mulher?

MAURO — Disse que é vizinha da rua detrás.

ROBERTA — Qual o nome dela?

MAURO — Não sei, Rô. Ela disse que o filho sumiu e que tá vindo aqui.

ROBERTA — E você deixou?

MAURO — Qual o problema, Roberta?

ROBERTA — A gente nem sabe quem é e você deixa vim aqui procurar filho que sumiu?!

MAURO — O que isso tem demais, Roberta?

ROBERTA — Você sabe que vizinha é essa?

MAURO — Ela falou que é vizinha da rua detrás.

ROBERTA — Ela falou, né Mauro, mas a gente não sabe. E que história maluca é essa de filho que sumiu?

MAURO — Tá bom, Roberta. E que gritaria foi aquela?

ROBERTA — Ah, foi um bicho verde parecendo um papagaio. Eu joguei pedra nele e ele foi embora.

(Toca a campainha.)

ROBERTA — E agora?

MAURO — Vai lá atender.

ROBERTA — Eu? Vai você que falou com ela.

MAURO — Custa você ir lá?

ROBERTA — Eu não gosto de atender gente estranha.

MAURO — Roberta, não complica.

ROBERTA — Você que falou com ela, que se entenda com ela.

MAURO — Tá bom, tá bom! (E sai.)

ROBERTA (gritando) - Mas eu não quero gente estranha entrando na minha casa!

(Uma mulher aparece no quintal.)

MULHER — Oi. Ninguém apareceu, eu fui entrando...

ROBERTA — Pois não.

MULHER — Você não viu meu filhinho?

ROBERTA — Mas seu filho tava onde?

MULHER — Ele tava em cima das árvores... (Olhando em volta.) Acho que naquelas árvores ali.

ROBERTA — Eu não vi criança nenhuma...

MULHER — Zezinho, filhinho, você tá aí?

(Ouve-se novamente a gritaria.)

MULHER — Eu acho que é ele!

ROBERTA — Ah, não, isso aí é um papagaio chato que...

MULHER — É o Zezinho! Eu conheço a voz do meu filhinho.

ROBERTA — Mas Zezinho é o papagaio?!

(Chega Mauro.)

MULHER — Boa tarde! O senhor não viu o Zezinho?

MAURO — Bem... Nós estávamos aqui na varanda conversando e não apareceu ninguém. A não ser um bicho verde que minha esposa jogou pedra...

MULHER — Você jogou pedra no meu filhinho?

ROBERTA — Não, não.

MAURO — Não foi no seu filho não, foi num papagaio...

MULHER — Zezinho, cadê você?! (E sai correndo em direção à cerca do fundo.)

(Enquanto isso, Roberta e Mauro discutem baixinho.)

ROBERTA — Por que você foi falar que eu joguei pedra?

MAURO — Como eu ia saber que o Zezinho era o papagaio?

(Mauro e Roberta se aproximam da cerca onde a mulher fala com o papagaio, que está em cima de uma árvore.)

MULHER — Zezinho, filhinho, desce daí. Vem com a mamãe, vem! (O papagaio grita.)

ROBERTA — Como esse bicho foi parar aí?

MULHER — Ele tava lá em casa, no poleiro, como ele sempre fica, mas aí de repente ele voou. Eu não sei se ele viu alguma coisa e se assustou. Eu chamei ele, Zezinho, Zezinho, mas ele continuou voando. Eu saí correndo atrás dele e vi ele pousar aqui nessas árvores. Mas esse terreno aí detrás é muito íngreme, e eu não consegui subir. Então, pensei que se eu viesse pelo lado de cima ia ser mais fácil. Aí, liguei pra vocês.

ROBERTA — Sei...

MULHER — Obrigada por vocês me deixarem entrar.

ROBERTA — Mas quem te deu nosso telefone? Acho que não nos conhecemos.

MULHER — Ah, foi o segurança do condomínio. Eu liguei na portaria e pedi o número de vocês.

(Roberta olha com cara feia para Mauro.)

MULHER — Só que agora que eu estou vendo: tem essa cerca aqui. Como é que eu vou entrar no terreno pra pegar o Zezinho?

ROBERTA — É... como?

MULHER — No vizinho também tem cerca, né?

ROBERTA — É... tem.

MAURO — Se você chamar o papagaio, ele não vem?

MULHER — Zezinho é adestrado. É um amor de bichinho, entende tudo que a gente diz pra ele.

ROBERTA — Que papagaio inteligente!

MULHER — Mas ele tem andado meio rebelde. Não sei se ele vai me obedecer.

ROBERTA — Ah, que pena!

MULHER — Zezinho, filhinho, vem com a mamãe, vem! (O papagaio grita novamente.)

ROBERTA (para Mauro, baixinho) — Eu vou matar esse papagaio!

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