
| Traição virtual | ||
Nunca pensou que aquilo fosse lhe acontecer. Amava o marido e dizia a todos como era feliz ao seu lado. Encontrara o homem de sua vida, o amor incondicional, sincero, profundo, sereno. No começo, a paixão veio forte, as brigas também. Passaram por um período de ajuste e agora o amor reinava, ela sabia. Casou-se na certeza da eternidade do sentimento. Ele era seu homem, seu companheiro, parceiro, amante. Não podia se sentir mais feliz, estava completa. Até que começou a se corresponder com uma pessoa na grande rede. Fazia dois anos que entrara no mundo virtual. Amor à primeira vista, se entregou à interatividade. Conheceu pessoas de diversos lugares, batia papos intermináveis com amigos virtuais; como eram chamados aqueles com quem conversava mais de uma vez. Adorava conversar. Sentia-os mais próximos que os amigos que podia tocar. Era como se conversasse com a alma deles. O marido às vezes ficava enciumado, mas ela logo o acalmava com palavras de amor. Sinceras. Os amigos virtuais preenchiam a incessante busca pelo novo. Cada vez que trazia um novo amigo para sua rotina atrás da tela, sentia-se renovada. E a recente alegria influenciava a relação física. Ficava amável, dócil com o marido, como se amolecesse a realidade. Mas um dia conheceu um homem. Incomum, perturbou-lhe às primeiras frases trocadas. Como poderia se sentir assim por um estranho? Mal sabia seu nome; aquilo era um “nick”? Na primeira vez, conversaram por mais de três horas. Ela só parou, porque o marido chegou. Nunca havia se sentido daquela maneira, traindo. Só um bate-papo informal e ela se sentiu traindo. Fizera um pacto com o marido à época do namoro de que não haveria traição entre eles. Que se algum dos dois se sentisse atraído por outra pessoa, diria ao companheiro. Acreditava que numa relação completa, não havia espaço para terceiros. E agora? Como entender sua situação? Amava o marido, sim, com o mais sincero dos sentimentos. Como poderia sentir atração por outro? Estranho. Sem saber seu nome, seu rosto, seu cheiro, seu gosto. Um estranho. Os dias se passavam e ela não conseguia evitar o contato diário com aquele amigo virtual. Nunca haviam se falado como amantes. Ela temia que o desejo fosse só dela. Ele sempre se mostrava amigo, confidente, revelava detalhes de sua vida íntima com a esposa que ela não queria saber. Ou queria? Mistura de ciúme e curiosidade. Como ele era no amor? Tão carinhoso, gentil, palavras doces. Fazia poesia para a mulher. Por que não para ela? Meses se passaram e ele nunca se declarava. Será que sentia o mesmo que ela? Por que ela não dizia o que queria? Por que ele não dizia o que ela queria? No convívio diário com o marido, ela tentava se manter como antes, mas a amizade virtual não mais lhe trazia alegria. Sua docilidade agora era falsa, forçada. Arrancada. Será que o marido percebia? Não queria saber. Não queria nem pensar. Apenas vivia como esposa. Deitava-se ao seu lado na cama, deixava que ele a procurasse. Se ele soubesse onde ela estava. A voz que não ouvia, o rosto que não conhecia, as mãos que não sentia. Seria o marido por instantes. Personificava o amante no marido. E gozava. O marido satisfeito repetia juras de amor e ela se sentia culpada. Calada, sorria. A situação prolongava-se por seis meses. Era tempo demais. Sofrimento demais. Dúvidas demais. Será que ele sentia o mesmo? Por que nunca se declarava? Por que ela nunca se declarava? Faltava-lhe coragem, ou sobrava letargia? Casamento estável, dinheiro estável, marido estável. A estabilidade era insuportável. Por que nada acontecia? Por que o marido não chegava tarde? Por que não tinha uma amante? Por que não percebia que ela não mais o queria? Por que tinha que ser tão perfeito? Por que tinha que amá-la tanto? Não agüentava mais olhar para a sogra. As visitas dominicais se espaçaram. Sua mãe reclamava de sua ausência. Ela inventava desculpas. Não queria sair para o mundo, do seu mundo. O computador e ela. As conversas furtivas, enquanto o marido sonhava na cama vazia. Dormia pouco, menos de quatro horas por dia. As olheiras começavam a dar sinal. A maquiagem resolvia, antes que o marido acordasse. Queria acabar com aquilo, mas não conseguia. Não queria mais trair o marido. Sempre tão correta, tinha fama de comportada na escola. Não beijava na boca sem pelo menos conversar por uma hora antes. Marcava no relógio. As amigas riam, se divertiam, traíam. Ela se horrorizava. Traição jamais!, pensava e dizia. E se não fosse traição? Conversava com ele como amiga, nunca como amante, nunca dissera uma palavra que sugerisse algo além de amizade. Mesmo que fosse traição virtual, mesmo que nunca visse o rosto dele, mesmo que nunca ouvisse a sua voz, mesmo assim ela se sentia traindo. Traía na cama, nos beijos rápidos no marido, nas inseguras promessas de amor, nos gestos vazios de sentido. Ela não era assim. Como o marido não percebia? Que não era ele que ela beijava fogosa no sábado à tarde. Que não era para ele as palavras carinhosas, as declarações sensuais, as impetuosidades na cama. Como podia ser tão falsa? Não era falsa, só não era verdadeira. Estava infeliz, angustiada. A virtual traição não saía de sua cabeça. Precisava resolver aquilo. A sua vida. Durante dez dias não saiu de casa. Recolheu-se no quarto à desculpa de estar gripada. O marido levava-lhe chá na cama. Até febre teve. Tomava o antitérmico de duas em duas horas com medo de delirar uma verdade. Nos últimos dias, convenceu-se de que encontrara a solução. Aos poucos, enquanto o marido dormia, ia se desfazendo do relacionamento virtual. Duas horas aqui, meia hora ali e, finalmente, um adeus. Vou viajar, escreveu. Desligou o computador e foi para a cozinha. Procurou o veneno para ratos na despensa e preparou a dose: todo o conteúdo do envelope dissolvido em água. Letal. Observou o copo contraluz. Cheirou. A água permanecia incolor e inodora. Talvez a morte também seja assim, pensou. Caminhou com o copo na mão até o quarto onde o marido dormia. Entrou silenciosa, medindo os passos. Pousou o copo no criado-mudo e deitou-se na cama. O marido dormia sereno. Não era uma mulher de traições, não podia ser. Sua decisão estava tomada. Ao amanhecer o dia, tudo estaria acabado. Não haveria mais sofrimento. Abriu os olhos quando ouviu o barulho. O marido estava caído ao lado da cama, com a mão no peito. Os olhos esbugalhados. Da boca, escorria uma saliva amarela. De joelhos sobre a cama, ficou ali parada, com os olhos secos, sem ver. Não era uma mulher de traições, não podia ser. Sua decisão estava tomada. Ao amanhecer o dia, tudo estaria acabado. Não haveria mais sofrimento. |