
| Traição | ||
Estavam casados há dois anos. Júlia, a esposa, trabalhava numa empresa de importação e Roberto, o marido, era um alto executivo de uma multinacional. Viviam bem, apesar do ciúme de Júlia, que implicava com as secretárias do marido sem que houvesse motivo para isso. Roberto jamais dera sinais de infidelidade. Tratava a esposa com carinho e atenção. Sempre lhe fazia surpresas como levá-la para viajar nos fins de semana para os lugares de que ela mais gostava. Ela até reconhecia as gentilezas do marido, mas não conseguia evitar a sua desconfiança. Achava que o cargo dele chamava a atenção de mocinhas interesseiras e ele poderia não resistir aos apelos de alguma sirigaita. Roberto tentava compreendê-la, respondendo às perguntas da mulher e deixando que ela escolhesse suas secretárias. Como não tinham filhos e achavam cedo para tê-los, compraram um cachorro. Mais por insistência de Roberto, que adorava passear com o cãozinho nos fins de tarde. Sempre que Roberto chegava do trabalho, Júlia aproveitava o momento em que ele ia tomar banho para revirar suas roupas à procura de algo. Nunca encontrava nada além de extratos bancários e notas fiscais. Tudo devidamente conferido. Não havia compra que não fosse investigada. Certo dia, encontrou um pedaço de papel com o nome de Purina e um número de telefone. Imediatamente, sentiu um nó no estômago. Finalmente encontrara algo suspeito. Um nome feminino e um número de telefone. Enquanto o marido terminava o banho, discou o número anotado no pedaço de papel. Uma voz feminina atendeu. Confiante de que aquela voz era da amante, não pensou duas vezes e foi dizendo um monte de desaforos. Só parou quando uma voz masculina a interrompeu: “Senhora, acho que ligou para o lugar errado, isto aqui é uma loja de ração para cães.” Sem se convencer, Júlia perguntou quem era Purina. Ao que o homem respondeu: “Purina é uma marca de ração para cães.” Só então Júlia caiu em si. Lembrou-se de ter visto um anúncio do produto numa revista especializada. Envergonhada, pediu desculpas e desligou sem se identificar. Quando Roberto saiu do banheiro, Júlia estava tão sem graça que mal conseguia olhá-lo no rosto. Porém não lhe contou o vexame pelo qual acabara de passar. Sentia-se tão envergonhada que, naquela mesma noite, decidiu nunca mais revirar as roupas do marido e tentaria, na medida do possível, não mais desconfiar dele. Nos meses seguintes, Júlia conseguiu manter-se distante das roupas do marido e evitava fazer perguntas que julgava desnecessárias. Roberto estranhou a princípio, mas por ser uma atitude positiva, não quis saber o motivo da mudança da mulher. Porém não demorou muito para que a desconfiança voltasse a perturbar Júlia. Num dia que Roberto estava no exterior em viagem de negócios, Júlia recebeu pelos Correios a fatura mensal do cartão de crédito dele. Como ele ia chegar após a data do vencimento da fatura, Júlia achou melhor ela mesma pagar. Apesar de terem cartões de crédito separados, não lhe custava nada evitar que o marido pagasse o débito com multa por atraso. Ao conferir a soma dos gastos, Júlia notou que haviam nove despesas no mesmo lugar, de nome Irmãos Costa, em diferentes datas. Intrigada, procurou na lista telefônica o nome Irmãos Costa. Descobriu que se tratava de uma loja de rações para cães. Mais uma vez, Júlia se sentiu ridícula, por desconfiar de algo sem nenhum motivo. Ela, que mal cuidava do cachorro, nem sabia onde o marido comprava as rações. No dia que Roberto chegaria de viagem, Júlia decidiu fazer-lhe uma surpresa. Ia esperá-lo no aeroporto; afinal, em três anos de casados nunca fizera isto. Telefonou para a companhia em que ele trabalhava a fim de confirmar o horário de sua chegada ao país, mas foi surpreendida por uma notícia inesperada: “O doutor Roberto está de férias há duas semanas.” Chocada com a resposta, desligou o telefone sem dizer nada. Foi para o aeroporto disposta a tirar aquela história a limpo. Ao chegar lá, foi informada de que o vôo estava atrasado. Impaciente, perambulava pelo aeroporto imaginando explicações. Esperou por quase três horas. Quando, finalmente, o avião pousou, correu para a porta de chegada dos passageiros. Porém não viu Roberto entre as dezenas de pessoas que passavam à sua frente. Desesperada, correu para o balcão de informações. Conseguiu que uma atendente do aeroporto verificasse junto à empresa do vôo em que Roberto deveria ter voltado, a lista de passageiros. Após algumas consultas, a atendente disse à Júlia que o nome de Roberto constava da lista, mas ele havia chegado atrasado e por isso perdera o vôo. Aliviada, Júlia ia agradecer a moça, quando foi interrompida por ela: “Na verdade, duas pessoas perderam o vôo: o seu marido e uma tal de Purina Costa.” |