Uma surpresa família - Peça em um ato

Personagens

MARISE
ZILÁ
ARLINDO
ALICE
MÁRIO
EULÁLIA
LÉA
DANILO
LAVÍNIA

(O cenário é de uma sala de jantar. Ao fundo, bem no meio, há uma porta que dá acesso à cozinha. Do lado direito da porta, há um telefone numa mesinha com cadeira. Na gaveta da mesinha, há uma lista telefônica. Do lado do telefone, uns pequenos papéis em branco e uma caneta. Do lado esquerdo da porta, um porteiro eletrônico pendurado na parede. Na parede lateral esquerda, ao fundo, há uma porta de acesso ao lavabo e à sala de estar. Encostada à parede, uma cristaleira coberta com um lençol. Próximo a ela, uma mesa grande com seis cadeiras desarrumadas, todas encostadas à direita da mesa. Em cima dela, duas esculturas: de um homem e de uma mulher primitivos. Na parede lateral direita, ao meio, uma porta de acesso ao corredor. Do lado direito da porta, um relógio pendurado na parede. Próximo à parede, jornais forrando o chão.)

(Sexta-feira, 7h20min da manhã.)

(Marise entra na sala de jantar pela porta da cozinha falando com o pedreiro Danilo, que a segue.)

MARISE — Olha, seu Danilo, eu já preparei tudo pro senhor. Forrei o chão com jornal que é pra não sujar o piso. Piso novo que o senhor colocou, né?!

DANILO — Mas sabe que que é, dona Marise? Eu hoje tava pensando em consertar aquelas rachaduras lá fora, no quintal.

MARISE — Mas o senhor não disse que hoje ia consertar as rachaduras da sala de jantar (e aponta para uma parede imaginária, em direção à platéia)? Eu até preparei o chão com jornal, seu Danilo.

DANILO — Não se preocupa, não, dona Marise. Até o meio-dia eu acabo lá fora e venho pra cá.

MARISE — Então, eu vou deixar os jornais aqui mesmo. Já fica pronto pra quando o senhor vier trabalhar aqui. O senhor vai começar aqui hoje mesmo, né, seu Danilo?

DANILO — Sim, senhora, dona Marise, hoje mesmo eu começo. Dá licença.

(Danilo sai. Toca a campainha. Marise atende pelo porteiro eletrônico.)

MARISE — Quem é? Ah, dona Lavínia, já vai.

(Marise sai pela porta da cozinha, voltando em seguida com Lavínia atrás.)

MARISE — Mas, dona Lavínia, eu falei pra sua filha que era pra senhora só vir semana que vem, que hoje quase não tem roupa pra senhora passar. E fazer a limpeza também não dá, porque o seu Danilo tá aí. Tá trabalhando lá no quintal e depois vem trabalhar aqui na sala de jantar.

LAVÍNIA — Eu não recebi o recado, dona Marilza.

MARISE — Bom, então já que veio, a senhora vai limpar os banheiros. Banheiro tá sempre precisando limpar. Pode começar pelo lavabo. O material de limpeza tá lá nos fundos no lugar de sempre.

(Marise espera Lavínia sair.)

MARISE — Mais essa agora! (Olha o relógio na parede.) Ih, tá na hora de chamar os dois...

(Marise sai pela porta do corredor. In off ouve-se ela abrindo uma porta e o diálogo:)

MARISE (falando alto) — Alice, tá na hora. Já são 7 e meia. Alice, acorda!

ALICE — Não vou hoje, não.

MARISE — Não vai, por quê? Tá sentindo alguma coisa?

ALICE — Tô com dor de cabeça.

MARISE — Dor de cabeça? Quer tomar remédio?

ALICE — Não.

MARISE — Toma um remédio que passa. Hem?! Não quer, não?

ALICE — Não! Quero dormir.

MARISE — Tá, então dorme. (E fecha a porta, abrindo-a em seguida.) Que horas te chama?

ALICE — Na hora do almoço.

MARISE — Tá. Bom sono! (Fecha a porta.)

(Lavínia entra na sala carregando balde, rodo e pano de chão e sai pela porta do lavabo. Outra vez, in off, Marise abre uma porta e trava o seguinte diálogo:)

MARISE — Mário, tá na hora. Já são 7 e meia. Mário, acorda! (Bem alto.) Você vai ou não vai?

MÁRIO — Vou.

MARISE — Então, vamos. Levanta que tá na hora. Sua aula não é às 8? Então, tá na hora. Vamos, senão vai chegar atrasado. (Fecha a porta.)

(Marise entra na sala, toca o telefone e ela atende.)

MARISE — Alô? Quer falar com quem? É, é Marise, sim. Tia? Oi, tia. Nem reconheci sua voz. A senhora tá boa? A senhora tá aqui em Campinas?! Aonde? No aeroporto? Houve algum problema, tia? Lá no Rio, com a Eulália? Ah, a Eulália veio também, tá com a senhora. Vieram fazer uma surpresa, ah, sei. Então tá, tia, eu vou falar pro Arlindo ir buscar a senhora e a Eulália aí no aeroporto. Não, não é muito longe, não. Tá, tia, daqui a pouco ele taí. Tá. Até já.

(Assim que ela põe o fone no gancho, Zilá entra na sala.)

MARISE — Sabe quem acabou de ligar? A tia.

ZILÁ — Léa?! Minha irmã querida!?

MARISE — Ela e a Eulália estão no aeroporto. Vieram fazer uma surpresa.

ZILÁ — No aeroporto? Quê aeroporto? O que elas estão fazendo num aeroporto?

MARISE — Vieram pra cá de avião, mãe. Estão no aeroporto de Viracopos.

ZILÁ — Aqui em Campinas?

MARISE — É, mãe.

ZILÁ — Mas ela não me falou nada que vinha pra cá.

MARISE — Vieram fazer uma surpresa, vieram sem avisar.

ZILÁ — Ah, mas devia ter avisado que ia fazer essa surpresa.

MARISE — Avisado o quê? Se ela queria fazer surpresa, como é que ia avisar? Agora eu tenho que chamar o Arlindo, pra ele ir buscá-las no aeroporto. Pior que ele não vai gostar nada nada de ter que ir buscá-las. Se fosse perto, eu ia. Mas aquele aeroporto longe pra cacete, eu é que não vou dirigir naquela estrada deserta. Pode aparecer um ladrão, sei lá. Bom, eu vou chamar o Arlindo.

(Marise sai e Zilá fica na sala. Danilo entra chamando Marise.)

DANILO — Dona Marise. Ah, dona Zilá, bom dia!

ZILÁ — Bom dia, seu Danilo. Como vai o senhor?

DANILO — Bem, graças a Deus.

ZILÁ — O senhor estava chamando a Marise?

DANILO — É pra ela ver um negócio lá fora.

ZILÁ — A Marise foi lá dentro. O senhor quer que eu a chame?

DANILO — Não, pode deixar, dona Zilá. Não é nada importante. Depois eu falo com ela.

ZILÁ — Está muito bem, seu Danilo.

DANILO — Obrigado, dona Zilá. Dá licença.

ZILÁ — Pois não.

(Danilo sai. Em seguida, entra Marise na sala.)

MARISE — Arlindo ficou danado de ter que acordar cedo pra ir buscá-las no aeroporto. Gasta um dinheirão pra vir de avião do Rio pra cá, mas dinheiro pra pagar um táxi não tem.

ZILÁ — Mas aquilo é a Eulália, que só quer viajar de avião. Não quer viajar de ônibus porque demora muito. Diz que fica muito cansada. As pernas incham...

MARISE — Ela tá inchada é de gorda! Tá gorda que nem uma porca!

ZILÁ — Aquilo é da doença, coitada. Tenho muita pena dela.

MARISE — E não é, a tia também prefere viajar de avião. É mais rápido, não dá tempo da Eulália dar alteração. Porque de ônibus, a viagem é mais longa. São sete horas de viagem. Aí, dá tempo da outra dar alteração. Cisma lá com alguém, aí já viu. E a tia é que fica mal nessas horas, porque quem não sabe, não conhece, não sabe que ela é perturbada. Quem conhece, sabe que é doente, não liga pro que ela fala. Mas quem não sabe? Reage. Por isso é que a tia não gosta de viajar de ônibus, por que tem que tomar conta da filha. E a filha é doida, não sabe o que fala. Só fica arrumando confusão.

ZILÁ — Coitada da minha irmã. Tem esse peso pra carregar...

MARISE (falando baixo) — Eu tenho medo é que ela arrume confusão com o seu Danilo, ou com a dona Lavínia.

ZILÁ — A dona Lavínia tá aí?

MARISE — Tá, tá no lavabo. Mandei lavar os banheiros. (Cochichando.) Não recebeu o recado que eu deixei com a filha pra não vir hoje.

ZILÁ — Seu Danilo acabou de sair daqui, estava te procurando. Mas disse que não era nada importante, que depois fala com você. Ele tá trabalhando lá fora, é? Mas ele não ia trabalhar aqui dentro hoje?

MARISE — Ia, mãe, mas não vai mais. Disse que ia trabalhar lá fora até o meio-dia e depois vinha trabalhar aqui dentro, depois do almoço naturalmente. Mas do jeito que é lerdo, vai levar o dia todo lá fora. E eu ontem arrumei tudo aqui dentro. Botei a mesa pra lá, as cadeiras, forrei o chão com jornal... à toa. E agora as duas resolvem vir pra cá de surpresa! Mas não vou arrumar nada, não. Vai ficar do jeito que está! Tô fazendo obras na casa... Vêm numa hora imprópria. Porque não avisou? Que idéia de fazer surpresa! Idéia de jerico!

ZILÁ — O pior é a Eulália. Se cismar com alguma coisa ou com alguém, aí é que são elas!

MARISE — Eu não quero nem saber! Tô com a casa em obras, não vou ficar fazendo sala pra ninguém.

ZILÁ — Ah, eu faço. Mas a sala de estar não se pode abrir, porque passou o sinteco...

MARISE — Ah, eu tinha me esquecido disso! Não se pode ir na sala por causa do sinteco. A sala tem que ficar fechada até semana que vem.

ZILÁ — Mas será que não pode abrir?

MARISE — Passou o sinteco ontem. Tem que ficar a semana toda com a porta fechada. Ninguém pode entrar por causa do cheiro. Mais essa! Aonde é que elas vão ficar?

(Alice entra na sala arrumada para sair, carregando uma mochila no ombro.)

MARISE — Ué! Você não disse que não ia à aula hoje?

ALICE — Lembrei que tenho prova hoje.

MARISE — E a dor de cabeça passou?

ALICE — Passou nada! Bom dia, vovó.

ZILÁ — Bom dia. Está com dor de cabeça?

MARISE — Então não vai. Tá com dor de cabeça, não vai. Faz a prova outro dia.

ALICE — Mas tenho que fazer hoje! Senão depois tenho que pagar pra poder fazer a prova outro dia.

ZILÁ — Sua tia Léa e a Eulália estão aqui em Campinas. Ligaram a pouco pra sua mãe do aeroporto.

ALICE — Vieram sem avisar?

MARISE — Vieram fazer uma surpresa! Você não vai comer nada? Eu preparo um leite com chocolate pra você.

ALICE — Não, não dá tempo. Daqui a pouco, a menina tá aí pra me dar carona.

MARISE — Mas come alguma coisa antes de ir! Vai sair sem comer nada? Quer que eu prepare um chocolate quente pra você?

ALICE — Não dá tempo!

MARISE — É rápido! Quer que eu prepare? Eu preparo...

ALICE (irritada) — Não, não quero nada!

MARISE — Come um pãozinho pelo menos!

ALICE (mais irritada ainda) — Não quero comer nada!

ZILÁ — Mas onde é que elas vão dormir?

MARISE — Bom, pra dormir, a Léa pode dormir com você no seu quarto na cama de casal. Papai morreu, tem espaço. Mas, e a Eulália? O quarto dos fundos não tá pronto ainda. Não pode dormir lá. Só se ela dormir no quarto da Alice...

ALICE — Ah, não! No meu quarto, não!

MARISE — Você dá seu quarto pra ela dormir, e você dorme no meu, comigo e com seu pai...

ALICE — Eu não vou dar meu quarto pra maluca nenhuma dormir!

MARISE — Mas o que que tem demais ela dormir no seu quarto, Alice?

ALICE — E se depois ela mexe em alguma coisa lá?

MARISE — E onde é que ela vai dormir? Você dorme comigo e com seu pai. Vou colocar um colchonete do lado da minha cama e você dorme lá. Pronto! Está resolvido o problema!

ALICE — Eu não vou dormir em colchonete nenhum!

MARISE — Por que não? Você sempre dormiu!

ALICE — Dormia quando era criança e não podia reclamar! Aqueles colchonetes velhos, cheios de traça! Eu vou dormir no meu quarto, ela que durma em outro lugar! (Ouve-se uma buzina.) Chegou! Tchau!

(Alice sai pela porta da cozinha.)

MARISE — Tchau! Vai com Deus!

ZILÁ — Até logo! Marise, ela pode dormir aqui nessa sala...

MARISE — Alice?

ZILÁ — Não, a Eulália.

MARISE — Dormir nessa sala como? Não tá vendo que tá tudo cheio de jornal pelo chão?

ZILÁ — Tira esses jornais daí do chão e coloca um colchonete. E ela dorme aqui.

MARISE — E ela vai querer dormir aqui, mãe? Não conhece a Eulália? É toda cheia de moda! Não vai gostar de ter que dormir no chão!

ZILÁ — Fica sem gostar!

(Marise fica olhando a sala.)

MARISE — É, só se colocar um colchonete aí no chão. Tira esses jornais daí... É o jeito, porque não tem outro lugar. Vai ter que dormir aqui. Quer goste, quer não goste. Veio de surpresa, então não tem nada preparado. Porque quando avisa que vai vir, a gente prepara os quartos, deixa tudo arrumado, lençol, fronha, toalha, sabonete, pasta de dente, até escova de dente nova eu tenho guardada, porque a Eulália é dona de esquecer escova de dente. Sempre que vem aqui (fazendo voz de falsete) “ah, esqueci minha escova de dente, você não tem uma pra me emprestar?”. Aí, tem que sair com ela pra comprar escova de dente. Agora comprei uma e guardei que é pra quando vier já tem uma escova nova pra madame. Elas encontram tudo arrumado. Mas vieram sem avisar, então não vai ter nenhum hotel cinco estrelas. Eu é que não vou ficar me danando pra elas terem do bom e do melhor.

ZILÁ — É... Vou tomar meu café da manhã. Com essa confusão toda ainda não comi nada.

(Zilá sai pela porta da cozinha. Arlindo entra.)

MARISE — Já vai buscá-las?

ARLINDO — É, tem que ir, né? Você não vai comigo?

MARISE — Ah, não posso! Tenho um monte de coisas pra providenciar.

ARLINDO — É, eu que sou o motorista. O dinheiro que elas iam gastar pegando um táxi, deveriam me dar, né? Sou aposentado, quero dormir até tarde e tenho que levantar 7 e meia da manhã pra ir buscar a irmã da minha querida sogra e a filha dela no aeroporto que fica longe pra cacete.

MARISE — Elas vão ver que fica longe e aí da próxima vez vão vir de táxi.

ARLINDO — Vão vir nada! Essa não é a primeira vez. Elas nem notam que fica longe.

MARISE — Sai por aqui que na sala não pode passar.

(Arlindo e Marise saem pela porta da cozinha. O cenário passa a ter uma luz fraca. Começa a tocar uma música ao piano em ritmo acelerado típica de filme mudo. Com a música de fundo, Lavínia entra na sala de jantar carregando os mesmos objetos de antes, cruza com Marise no meio da sala que a manda, apontando com a mão, sem falar, ir em direção à porta do corredor. Lavínia sai. Marise cruza a sala repetidas vezes, indo da porta do corredor à porta da cozinha e vice-versa, entrando e saindo por essas portas, carregando diferentes objetos a cada passagem pela sala. Objetos como toalhas, lençóis, fronhas, travesseiros e um colchão de mola que é encostado em uma das paredes da sala de jantar, ao lado do porteiro eletrônico. Ao trazer o colchão, é ajudada por Danilo.

Zilá também cruza a sala várias vezes, ajudando Marise a carregar os objetos, algumas vezes seguindo-a ou cruzando com ela no meio da sala, onde param e gesticulam por alguns segundos para continuar andando de lá para cá como “baratas tontas”.

Após alguns minutos, a música pára e a iluminação volta ao normal. Não há ninguém na sala. Arlindo entra pela porta da cozinha carregando uma mala em cada mão, atrás dele estão Léa e Eulália. As duas carregam suas bolsas habituais.)

ARLINDO — Marise! Chegamos! (Arlindo põe as malas no chão.)

(Marise entra pela porta do corredor. Está com outra roupa, cabelos arrumados.)

LÉA — Oohh! Minha querida sobrinha! (Vai em direção à Marise, cumprimentando-a com um abraço e um beijo.)

MARISE — Oi, tia! Como vai? (Marise abraça-a, indo em seguida abraçar Eulália.) Eulália! Como é que está, tá boa?

EULÁLIA — Tô e você? (Eulália solta uma gargalhada.)

MARISE — Fizeram boa viagem?

LÉA — Ah, fizemos! Viajar de avião é uma tranqüilidade!

EULÁLIA — Eu achei que demorou muito.

LÉA — Eulália estava com pressa de chegar. Mas quede a Ziloca?

(Zilá entra pela porta do corredor, também com outra roupa e cabelos arrumados.)

ZILÁ — Estou aqui!

LÉA — Ziloca! Há quanto tempo! (Vai em sua direção para abraçá-la e beijá-la.)

ZILÁ — Oh! Minha irmã querida! Quanta saudade! Fizeram boa viagem?

LÉA — Fizemos. Estava falando pra Marise que viajar de avião é uma tranqüilidade...

ZILÁ — Ah, viajar de avião é confortável!

EULÁLIA — É, mas eu não gostei desse avião que nós viemos! Da próxima vez, vou vir de táxi!

LÉA — Quê isso, Eulália? Vir de táxi do Rio pra cá?

EULÁLIA — Qual é o problema, dona Léa? Se eu quiser vir de táxi vou vir e daí? O que que você acha, Arlindo? Eu devo vir de táxi ou de avião?

ARLINDO — Vem de trem bala! É mais rápido. São quase 500 quilômetros daqui até o Rio.

EULÁLIA — É, trem bala é uma boa! (E solta outra gargalhada.)

MARISE — Sabe, tia, eu tô com a casa em obras. Vocês não reparem que a casa tá a maior bagunça. E hoje o pedreiro vai vir consertar esta sala aqui, por isso que tá tudo assim...

LÉA — Ah, minha filha, não precisa se preocupar conosco, que tudo se ajeita. Eu e Eulália podemos dormir nessa sala aqui da frente.

MARISE — Mas essa sala, tia, foi passado sinteco ontem. Ninguém pode entrar lá.

EULÁLIA — Ih, dona Léa, olha o que você arrumou! Agora não temos onde dormir. Vamos ter que procurar uma pensão.

ZILÁ — Não, Eulália, vocês vão dormir aqui. A Léa dorme comigo na cama de casal e você dorme aqui nesta sala.

(Eulália olha a sala e vê o colchão.)

EULÁLIA — Aqui neste colchão, é? (Espeta o dedo no colchão. O colchão é de molas e é bem grosso.) É de mola, é? Vou poder brincar de pula-pula. (Solta outra gargalhada.)

MARISE — Se você não gostar do colchão, eu tenho colchonetes...

EULÁLIA — Não, esse tá bom.

ZILÁ — Marise, a Eulália também pode dormir no meu quarto, é só levar o colchão pra lá. Coloca do lado da cama. O quarto é grande, tem bastante espaço.

MARISE — Então depois eu peço pro pedreiro levar. Porque eu não posso carregar peso. Tenho hérnia de disco. Vamos pôr as malas lá no quarto? Dinho, você leva as malas lá pro quarto da minha mãe?

ARLINDO — Levo! (Com cara de aborrecido, ele pega as malas e sai.)

MARISE — Vem, tia. Eulália, vem.

EULÁLIA — Tá, eu vou depois.

(Todos saem da sala, menos Eulália, que, agarrada à sua bolsa preta de couro, fica examinando tudo à sua volta. Aproxima-se da mesa e segura nas mãos as duas esculturas, da mulher e do homem primitivos. Até que Lavínia entra na sala e as duas se encontram.)

EULÁLIA — Quem é você?

LAVÍNIA — Eu sou a Lavínia.

EULÁLIA — Você é a empregada?

LAVÍNIA — Eu sou diarista. Faço limpeza na casa e passo roupa uma vez por semana.

EULÁLIA — Ah, empregada doméstica agora se chama diarista, é? Muito prazer, eu sou a doutora Eulália! (E lhe estende a mão para cumprimentá-la. Lavínia responde meio sem jeito.)

LAVÍNIA — A senhora é parente da dona Marilza, né?

EULÁLIA — Não, eu não conheço nenhuma dona Marilza. Quem é essa dona Marilza?

(Lavínia não sabe o que dizer, pede licença e sai.)

EULÁLIA — Ô, Marise! Mariseee!

(Marise entra na sala.)

MARISE — Que é, Eulália?

EULÁLIA — Ô, Marise, a sua empregada me perguntou se eu era parente de uma tal de Marilza. Quem é essa Marilza, você conhece?

MARISE (rindo) — Não, Eulália, Marilza é o modo como ela me chama. Ela não sabe falar Marise, então fala Marilza.

EULÁLIA — Ah, ela tem a língua presa, é? Precisa falar pra ela ir a um fonoaudiólogo. Você conhece algum aqui em Campinas?

MARISE — Deixa pra lá, Eulália. Não é língua presa, é que ela fala errado mesmo.

EULÁLIA — Cadê o Mário?

MARISE (como se lembrasse de algo) — Está dormindo. Daqui a pouco ele acorda.

EULÁLIA — Ah! A minha mãe tá no quarto da tia? Eu vou lá então.

(Eulália sai. Em seguida, Arlindo entra.)

ARLINDO — Eulália tá gorda, né?

MARISE — Humpf! A tia disse que ela veio a viagem toda comendo. Depois diz que tá inchada! (Fazendo voz de falsete.) “Não, não tô gorda, não. Isso é inchaço, tô toda inchada, não sei porquê.”

ARLINDO — Deve ser da doença, né? O Mário não vai à aula hoje?

MARISE — Pois é! Com essa confusão toda, eu esqueci de chamar ele de novo. Chamei ele hoje de manhã cedo, mas não conseguiu levantar. Chegou ontem em casa tarde, aí já viu, não consegue acordar! Eu vou deixar dormir, não levantou até agora, não vai levantar tão cedo.

(Toca o telefone e Marise atende.)

MARISE — Alô? Alice? Tá, eu vou falar com seu pai. (Fica segurando o fone.) Alice tá perguntando se você pode ir buscá-la na faculdade porque a menina que dá carona a ela vai ficar até mais tarde. Você pode ir buscá-la agora?

ARLINDO — Posso.

MARISE — Ele vai buscá-la. Tá, tchau. (Dirigindo-se a Arlindo.) Ela disse que vai ficar te esperando no estacionamento.

ARLINDO — É! O sujeito se aposenta pra servir de motorista da família.

(Danilo entra na sala.)

DANILO — Bom dia, seu Arlindo!

ARLINDO — Bom dia! Como é que tá a obra? Tudo certo?

DANILO — Tudo certo! “Vâmo que vâmo!” Dona Marise, eu posso começar aqui dentro?

MARISE — Ah, seu Danilo, o senhor já acabou lá fora?

DANILO — Já, dona Marise, lá fora tá pronto. Agora só falta aqui dentro.

MARISE — Então, seu Danilo, o senhor pode começar aqui dentro, por favor. Eu já forrei tudo.

DANILO — Eu vou pegar o material.

MARISE — A minha tia e a minha prima já chegaram. Já estão aqui em casa.

DANILO — Ah, que bom, né, dona Marise? Vieram fazer uma visita, né?

MARISE — É... (Sua expressão é de desânimo.)

ARLINDO — Família muito unida, né? É bom fazer surpresa, chegar sem avisar, pedir pra ir buscar no aeroporto...

(Danilo ri, pede licença e sai.)

MARISE — Não fica falando essas coisas na frente dos outros. E as duas ainda podem ouvir!

ARLINDO — Ah, deixa ouvir! Assim da próxima vez não vêm.

MARISE — Mas a gente tem que tratar bem. Quando nós vamos lá no Rio, elas até oferecem o quarto delas pra gente dormir.

ARLINDO — É, e aquela última vez que nós fomos lá e tivemos que dormir no porão, naquele quarto abafado, sem ventilação nenhuma? Um calorão de 40 graus e ainda põe nós dois e as crianças pra dormir no mesmo quarto. Tudo apertado, aquele monte de coisas velhas guardadas no fundo do quarto, com cheiro de mofo. E ainda deu aquele ventilador pra gente usar. Ventilador velho pra cacete, não ventilava porra nenhuma. Maior calorão, não conseguia nem dormir direito, suava o tempo todo.

MARISE — Psiu! Elas vêm vindo!

(Léa e Zilá entram na sala.)

LÉA — Então, Arlindo, como é que vai a vida de aposentado?

ARLINDO — Boa, muito boa! De vez em quando faço bico de motorista.

MARISE — É, ele às vezes tem que buscar a Alice na faculdade.

LÉA — É, os filhos! Eles estão dormindo, é? Não vão à aula hoje, não?

ARLINDO — Estão de férias!

LÉA (rindo) — Estão de férias, nada. Ainda não estamos em janeiro! Isso é coisa do Arlindo, sempre brincando...

ARLINDO — Tem que brincar, senão não dá! Marise, tô indo.

MARISE — Vai com Deus!

ARLINDO — Amém! (E sai.)

MARISE — Alice ligou da faculdade pedindo pra ele ir buscá-la.

(Toca o telefone e Marise atende.)

MARISE — Alô? Ele tá dormindo. Você quer deixar recado? Tá, eu falo pra ele. Tchau. (Põe o fone no gancho.) Sandra Regina procurando o Mário.

LÉA — Namorada dele?

MARISE — Não, é amiga. Uma das! Ele tá dormindo e eu não chamo, não. Se quiser que ligue depois. O menino ontem chegou tarde em casa, não vou chamá-lo pra atender telefonema de sirigaita.

(Danilo entra carregando seus apetrechos.)

MARISE — Seu Danilo, o senhor coloca as coisas aqui no canto, por favor.

(Danilo coloca as coisas encostadas na parede, ao lado da porta do corredor, onde estão alguns jornais no chão.)

ZILÁ — Seu Danilo, essa aqui é minha irmã, Léa.

DANILO — Muito prazer, Danilo, seu criado. (Estende-lhe a mão, cumprimentando-a.)

LÉA — Prazer, Léa. É o senhor que está fazendo as obras?

DANILO — É, sim, senhora.

LÉA — Então faça bem feito.

DANILO — É, eu me esforço pra isso, sim, senhora. Dona Marise, eu tô indo almoçar, aí depois eu começo o serviço aqui dentro.

MARISE — Está bem, seu Danilo, pode ir almoçar.

DANILO — Dá licença, dona Marise.

MARISE — Pois não, seu Danilo. (Danilo sai.) Tão vendo só? Ainda tá cedo pra almoço. Vai ver que nem fez o serviço direito lá fora, no quintal. Foi tão rápido! Deve ter feito igual à cara dele! (Marise passa as mãos pelo pescoço.) Ai, que calorão! Tem horas que me sobe um calor!

LÉA — É a menopausa! Eu também ficava assim. Uma hora sentia frio, noutra sentia um calorão medonho!

MARISE — É, mas não é só isso, não. São os problemas! Porque aqui em casa, sou eu que tenho que resolver tudo sozinha. Ninguém faz porra nenhuma! Fica todo mundo se escorando em mim! (Marise sai.)

LÉA — Marise está muito nervosa. Mas fazer obras na casa é assim mesmo. Pedreiros, pintores, vidraceiros, serralheiros, encanadores. (E ri.) Já fiz muita obra na minha casa.

ZILÁ — Eu também. Mas esse seu Danilo é cuidadoso, limpa sempre o local depois que termina de fazer o serviço...

LÉA — É?

ZILÁ — É!

LÉA — É, não parece, não. Tem cara de abestalhado! Bom, pelo menos é cuidadoso.

ZILÁ — E hoje também veio a arrumadeira. Veio no dia errado. Marise deixou recado pra não vir, mas não deram o recado. Ou se deram, resolveu vir assim mesmo. Deve estar precisando de dinheiro.

LÉA — A arrumadeira?

ZILÁ — Ééé... Diarista! Agora é esse negócio de diarista. Paga por dia. Vem uma vez por semana. Uma semana limpa a casa, na outra passa a roupa. Isso quando vem! Porque gosta de beber...

LÉA — Ih! Bebe, é?

ZILÁ — Bebe álcool puro! Diz que gosta de beber vinho, mas quando não tem vinho, bebe álcool puro mesmo. Isso quem nos contou foi uma vizinha dela. Porque até pouco tempo, nós não sabíamos de nada. Disse que um dia, ela estava trabalhando numa casa, quando passou mal, desmaiou e tiveram que levar para o pronto-socorro. Tinha pego uma garrafa de álcool na casa da patroa e bebido tudo. A garrafa inteira de álcool! E a patroa não sabia de nada.

LÉA — Ah, mas vocês não podem continuar com essa criatura dentro de casa. Uma criatura que bebe álcool puro! E depois isso pode dar em confusão. Já foi parar até em pronto-socorro! Veja só! Isso pode até dar em processo! Porque ela vai acusar vocês! Vai dizer que foram vocês que forçaram ela a beber uma garrafa inteira de álcool.

ZILÁ — É, é perigoso mesmo.

LÉA — Porque essa gente é assim! Ingrata mesmo. Não reconhece nada. Eu tive uma empregada que morava lá em casa. Você deve se lembrar dela. A Santinha.

ZILÁ — Ah, me lembro sim.

LÉA — Pois é. Dormia naquele quartinho ali, ao lado da cozinha. Eu lhe dei muita roupa! Roupa que eu não usava mais, ou que estava velha. Mas tudo roupa boa! Natal, Páscoa, lhe dava sempre um presentinho que era pra não dizer que não era bem tratada... Um belo dia, me aparece grávida! E sem saber quem era o pai! Ah, mandei embora na hora. Não ia ficar com uma empregada grávida dentro de casa. Porque senão ia dar mau exemplo pra Eulália. Onde já se viu? Solteira, grávida! Eulália era mocinha!

ZILÁ — É, não podia. Eu me lembro bem dela. De santinha só tinha o nome. Muito alegre, sempre falante...

LÉA — Assanhada! Vivia na companhia de rapazes. Pra baixo, pra cima, pra baixo, pra cima. Não podia mesmo saber de quem era o filho. Andava com Deus e o mundo!

ZILÁ — É...

LÉA — Arrumem outra empregada! Faxineira, arrumadeira, diarista, seja lá o que for, mas essa vocês têm que mandar embora.

ZILÁ — É, mas o problema é onde é que nós vamos achar outra! Não se pode mandar embora, porque não se acha quem faça o serviço. Ninguém quer nada. Batem aí na porta pedindo comida, mas emprego não quer. Querem comer de graça. Não querem trabalhar, não!

(Marise entra na sala.)

LÉA — Marise, você tem que mandar essa sua empregada embora. Onde já se viu manter dentro de casa alguém que bebe álcool puro!?

MARISE (perdendo a paciência) — Olha, tia, ela é uma excelente faxineira e passadeira. Pode beber álcool à vontade, desde que faça bem o serviço!

LÉA — Marise! Você tem dois filhos moços. Eles não podem conviver com uma alcoólatra!

MARISE — É só esconder a garrafa de álcool! A Eulália foi dormir?

ZILÁ — Não sei. Acho que estava no banheiro.

(Eulália entra na sala carregando a bolsa preta de couro.)

EULÁLIA — Eu estava no banheiro, por quê?

LÉA — Por nada, Eulália.

EULÁLIA — Ô, dona Léa, eu não perguntei pra você.

(Toca o telefone e Eulália atende.)

EULÁLIA — Alô? É a doutora Eulália. Mário?

MARISE — Tá dormindo! Diz que tá dormindo.

EULÁLIA — Ele está dormindo.

MARISE — Pergunta se quer deixar recado.

EULÁLIA — Quem quer falar com ele? Tá, eu digo pra ele. Bom dia!

MARISE — Quem era, Eulália?

EULÁLIA — Roseli.

MARISE — Ih, essa é outra que liga pra cá!

EULÁLIA — É a namorada dele?

MARISE — Não, é amiga. Ele só tem amigas!

ZILÁ — Eulália, como vão os seus gatos?

LÉA — Ela agora tá com mais de 20 gatos!

EULÁLIA — É, a cada dia aparece um. Não sei de onde que eles vêm.

LÉA — Eles sentem o cheiro da comida e vêm. Nós os tratamos bem. Eu compro carne no açougue e faço carne moída pra eles comerem. E não é qualquer carne, não! Eles só comem filé mignon!

ZILÁ — É? Filé mignon, é? São bem tratados.

LÉA — São!

MARISE — 20 gatos!? Tudo na casa de vocês?

LÉA — Eles ficam andando pelo quintal, pelos muros, em volta da casa. A Eulália que pega eles e leva pra dentro de casa.

EULÁLIA — O primeiro que apareceu foi o Michel.

LÉA — É, a Eulália deu esse nome pra ele. Michel! (E ri.) Pôr nome de gente em gato. A Eulália tem cada uma!

EULÁLIA — Eu vou tomar banho, sabe? (E sai.)

ZILÁ — Léa, venha cá que eu vou te mostrar as plantas do quintal.

MARISE — O que restou delas!

ZILÁ — Ah, é! Tinha até me esquecido disto.

LÉA — O que foi?

MARISE — O meu vizinho da esquerda (e faz um gesto com a mão apontando para a esquerda) cortou os galhos da minha trepadeira toda! Como se não bastasse cortar os galhos que estavam pendurados do lado do muro dele, não, cortou os galhos todos que a planta quase morreu!

LÉA — Mas vizinho é assim mesmo. Você não se lembra da minha vizinhança lá no Rio?

MARISE — Eu agora não falo mais com ele, não cumprimento mais. Nem a mulher dele também. Não falo mais com nenhum dos dois! Assassino de plantas! Que fiquem por lá! E eu aqui.

ZILÁ — Mas a trepadeira vai brotar...

MARISE — Daqui a um ano! Minha trepadeira tão bonita!

LÉA — Me mostra a trepadeira, Zilá. Vamos ver o que se pode fazer.

MARISE — Devia ter uma lei proibindo vizinho de cortar trepadeira dos outros.

(As duas saem. Marise está saindo da sala quando bate o pé na porta do corredor.)

MARISE — Ô, filha de uma puta!

(Arlindo e Alice entram na sala.)

ARLINDO — Chegamos!

MARISE —Veio mais cedo hoje? Fez boa prova?

ALICE — O professor faltou! Fui hoje só pra fazer a prova e a merda do professor faltou!

MARISE — Faltou, é? Mas que coisa! Essa gente não tem responsabilidade mesmo! A tia Léa e a Eulália já chegaram. E eu tô aqui pensando o que que eu vou fazer no almoço.

ARLINDO — Compra comida congelada.

MARISE — Mas eu não sei se elas gostam de comida congelada.

ALICE — Se não gostar não come.

ARLINDO — É, compra aquele medalhão com bacon.

ALICE — Merdalhão?

(Marise fica pensativa.)

ARLINDO — Compra o medalhão. É gostoso, elas vão gostar.

MARISE — E se elas não gostarem de bacon?

ARLINDO — Então compra outra coisa! Macarrão! Elas não comem macarrão?

MARISE — Não sei se gostam.

ALICE — Pergunta pra elas então.

MARISE — São cheias de moda! E não tem nem feijão aí. Senão, socava feijão com arroz nelas e não tinha problema. A Eulália é a que mais come.

ARLINDO — Sua tia também come pra cacete!

ALICE — Compra qualquer coisa.

MARISE — Qualquer coisa? Você é a mais enjoada! Você e seu irmão!

ALICE — Eu como de tudo.

MARISE — Eu sei!

ALICE — Tudo que não tenha legumes, verduras e peixe!

MARISE — Eu não vou pra cozinha! Detesto cozinhar!

ARLINDO — Vai naquela loja de congelados e compra qualquer coisa. Se não gostar não come.

ALICE — É!

MARISE — E vão passar fome?

ARLINDO — E vão passar fome, o quê?

ALICE — Na casa delas a gente não escolhe a comida.

MARISE — Mas a sua tia Léa faz aquele rosbife que você adora.

ARLINDO — Marise, compra qualquer coisa que tá bom.

MARISE — Eu vou comprar aquela torta.

ALICE — Aquela que tem pimentão?

ARLINDO — Se tiver pimentão, eu não como.

MARISE (perdendo a paciência) — Comida chinesa? Vocês gostam?

ALICE — Você sabe que eu gosto.

MARISE — Como é que eu vou me lembrar? Você e seu irmão têm que fazer uma lista das coisas que come e o que não come. O que um gosta, o outro não gosta!

ARLINDO — E elas será que gostam?

MARISE — Vou encomendar carninha desfiada com broto de bambu! Se não gostarem, comam pão com manteiga!

ALICE — Mário não gosta de carne desfiada e eu não gosto de bambu.

MARISE — Então comam o que quiserem!

ARLINDO — Marise!

MARISE — O que é?

ARLINDO — Onde você colocou os jornais de hoje?

MARISE — Os jornais? Ééé... Estão em cima da cama. Da nossa cama.

(Arlindo sai.)

ALICE — Eu vou voltar a dormir.

MARISE — Não vai almoçar?

ALICE — Na hora do almoço você me chama.

MARISE — Você falou com o seu Danilo e com a dona Lavínia hoje?

ALICE — Falar o quê?

ARLINDO (gritando do quarto) — Marise, o jornal não está em cima da cama.

MARISE — Tem que cumprimentar as pessoas!

ALICE — Que cumprimentar, o quê?

MARISE — Depois vão dizer que você é metida. (Fazendo voz de falsete.) “Ih, a filha da dona Marise é metida, não fala nem oi.”

ARLINDO (ainda gritando do quarto) — Marise!

MARISE (gritando) — Já vou! (Voltando ao normal.)Tem que cumprimentar as pessoas! E essa gente gosta que nós falemos com eles. Pessoas simples dão muito valor a essas coisas. E depois não é, tem que tratar bem, senão vão embora! E depois a gente que arrume outro!

ALICE — Você vive tratando todo mundo bem e só leva pé na bunda!

MARISE — E tá difícil arrumar outro!

ALICE — Não adianta nada tratar bem!

MARISE — Arrumar empregada, passadeira, pedreiro... Tá difícil!

(Alice sai, deixando Marise falando sozinha. Arlindo entra.)

ARLINDO — Os jornais não estão em cima da cama.

MARISE — Não? Mas eu coloquei os jornais em cima da cama!

ARLINDO — É, mas não estão lá.

MARISE — Onde será que eu coloquei? Eu vou lá procurar. Mas eu coloquei eles em cima da cama... (E sai resmungando.)

(Arlindo sai. Zilá e Léa entram na sala.)

LÉA — Onde será que está Eulália?

ZILÁ — Ela disse que ia tomar banho!

(Eulália entra, ainda carregando a bolsa preta.)

EULÁLIA — Me procurando, dona Léa?

(Alice entra.)

ALICE — Oi!

LÉA — Alice! Está crescida! (Vai em sua direção, abraça-a e a beija.)

EULÁLIA — Ô, Alice, tá boa? (Abraça-a e a beija também.)

ALICE — Tô.

LÉA — Estava na faculdade?

ZILÁ — Alice está no primeiro ano de Publicidade.

ALICE — Segundo ano, vovó!

LÉA — É, vai se formar em quê?

ALICE — Publicitária!

LÉA — Ah, vai fazer o mesmo que o seu pai, Jornalismo?

EULÁLIA — Não, mãe. Você não ouviu o que ela disse? Não é Jornalismo, é Publicidade!

LÉA — Ela está bonita. Está uma moça! E os namorados?

ALICE — Vão bem.

(Alice sai.)

LÉA — Ela não é de falar muito, né?

ZILÁ — É, é calada. Puxou o pai. Já o Mário puxou a mãe. Falante, conversa com as pessoas. Puxou a Marise. Já a Alice puxou o pai. O pai que é mais calado.

LÉA — É, cada filho puxa alguém da família.

EULÁLIA — Eu puxei meu pai! Ô mãe, eu vou tomar banho.

LÉA — Mas você ainda não tomou esse banho, Eulália?

EULÁLIA — Não. (E sai.)

(Marise entra na sala.)

MARISE — Cadê seu Danilo? Ainda não voltou do almoço?

(Danilo entra.)

DANILO — Tô aqui, dona Marise. Já vou começar.

MARISE — Muito bem, seu Danilo. O material já está ali, né? Pode começar.

(Danilo caminha em direção aonde estão os apetrechos, se agacha e começa a separar as ferramentas.)

ZILÁ — É melhor nós sairmos daqui e deixar seu Danilo trabalhar sossegado.

MARISE — Ah, seu Danilo, depois o senhor leva esse colchão lá pro quarto da minha mãe, fazendo o favor.

DANILO — Pois não, dona Marise.

(Entra Eulália na sala, sempre carregando sua bolsa preta de couro.)

EULÁLIA — Ô, mãe, onde você guardou meu pente? (Vê Danilo ali agachado, pára e pergunta:) Quem é esse homem aí, hem?

MARISE — É o seu Danilo, Eulália, o pedreiro.

(Danilo se levanta e lhe estende a mão.)

DANILO — Prazer, Danilo, seu criado.

(Eulália não lhe cumprimenta.)

EULÁLIA — Tá fazendo o quê aí?

MARISE — É que a casa tá cheia de rachaduras, e ele está consertando.

EULÁLIA — Ih, é mesmo, isso aqui tá cheio de rachaduras. (Fica olhando para cima em direção à platéia.) Rachadura é coisa de casa velha. Porque vocês não mandam consertar?

MARISE — Mas é o que o seu Danilo está fazendo, Eulália.

EULÁLIA — Ah, é? Mas ele tem cara de quem não vai fazer o serviço direito. Ele parece mais é ferreiro. Você sabe fazer cofre? Tô precisando de um cofre.

LÉA — Que é isso, Eulália? O homem é pedreiro, não é ferreiro.

ZILÁ — E cofre pode comprar pronto.

EULÁLIA — Ah, é? Depois você me dá seu cartão com seu endereço que é sempre bom conhecer um ferreiro.

(Danilo está sem ação.)

LÉA — Você não ia tomar banho, Eulália?

EULÁLIA — Ah, é mesmo!

MARISE — Bom, eu já liguei encomendando a comida e agora tô indo buscar. Daqui a pouco eu tô de volta com o almoço.

EULÁLIA — É aqui perto, é?

MARISE — É aqui na avenida.

EULÁLIA — Então eu vou também!

LÉA — Você não vai tomar banho, menina?

EULÁLIA — Eu vim aqui foi pra passear, não foi pra tomar banho. (E solta uma gargalhada.)

(Marise faz cara de quem não gostou, mas nada diz. Sai acompanhada por Eulália pela porta da cozinha.

A luz se torna fraca de novo. Léa e Zilá saem da sala. Danilo continua na sala e se agacha novamente. Fica separando as ferramentas. A luz se apaga. O colchão é retirado da sala. Quando a luz retorna, Danilo está segurando um pedaço de madeira e um martelo. Toca o telefone e Alice entra correndo para atendê-lo.)

ALICE — Alô? Oi, sou eu. Tudo bem e você? (Danilo começa a martelar pregos na madeira.) O quê? (Gritando.) Não estou ouvindo, fala mais alto. Eu gostaria muito de ouvir o que você está falando, mas está um pouco difícil! Tão martelando pregos aqui! Olha, não vai dar. Depois eu ligo pra você. Tchau.

(Danilo pára de martelar e olha para Alice.)

DANILO — Tá falando no telefone?

ALICE — Estava!

(Léa entra na sala.)

LÉA (dirigindo-se a Danilo) — Boa tarde! Ô, Alice, está todo mundo dormindo?

ALICE — Não sei. Acho que sim.

LÉA — Eu tentei dormir um pouco, mas não consegui. Não estou acostumada a dormir depois do almoço. A Zilá e a Eulália estão dormindo, mas eu não agüentei ficar na cama.

(Alice sai.)

DANILO — É bom tirar uma soneca depois do almoço.

LÉA — É, mas eu sou uma pessoa agitada, não sou de ficar dormindo, não. Nem à noite eu durmo. Tenho insônia.

(Começa a fazer um barulho parecido com um trem a todo o vapor.)

LÉA — Minha nossa senhora! Que barulho é esse, meu Deus?

(Marise entra correndo.)

MARISE — A máquina de lavar roupa! (E sai pela porta da cozinha.)

LÉA — Máquina de lavar roupa?! (E sai atrás de Marise.)

(Danilo levanta e vai atrás das duas. Eulália e Alice entram na sala. Eulália ainda carrega sua bolsa preta.)

EULÁLIA — Que barulho é esse?

ALICE — É a máquina de lavar roupa.

(Arlindo entra apressado.)

ARLINDO — Olha o trem!

EULÁLIA — É o trem bala! (E solta uma gargalhada.)

(Arlindo sai. O barulho pára. Eulália se aproxima das esculturas.)

EULÁLIA — É seu isso aqui?

ALICE — Não...

EULÁLIA — Você já viu o filme “Um homem e uma mulher”?

ALICE — Já.

EULÁLIA — Eu vi isso aqui e me lembrei do filme.

(Alice sorri.)

EULÁLIA — Pega esse filme pra gente vê.

ALICE — Tá, depois. (E sai rapidamente.)

(Mário entra na sala. Está com cara de quem acabou de acordar.)

EULÁLIA — Marinho! Acordou agora?

MÁRIO (assustado) — Madrinha? O que a senhora tá fazendo aqui?

(Eulália vai em direção a Mário, abraça-o e o beija.)

EULÁLIA — Tudo bem? Viemos fazer uma visitinha! (Solta uma gargalhada.)

(Marise entra na sala e sorri quando vê Mário.)

MARISE — Oi, meu filho! Sua madrinha e sua tia Léa chegaram hoje cedo. Vieram fazer uma surpresa.

EULÁLIA — Ele tá crescido! Tá com quantos anos, Marinho?

MÁRIO — Tô com 21, madrinha.

MARISE — Tá fazendo Engenharia Elétrica na Unicamp!

EULÁLIA — E vai casar quando?

MÁRIO (rindo) — Ê, madrinha!

MARISE — Tá muito cedo pra pensar em casamento!

EULÁLIA — Uma pretendente sua ligou. Disse que ligava mais tarde.

MARISE — A Roseli.

MÁRIO — Não é pretendente, não. É só uma amiga.

EULÁLIA — Consertou a máquina, Marise?

MARISE — Ah, seu Danilo deu um jeito. Tá vendo se conserta.

EULÁLIA — E minha mãe, onde está?

MARISE — Tá lá fora, Eulália.

EULÁLIA — Dá licença, viu, Marinho? Depois a gente conversa.

MÁRIO — Tudo bem, madrinha.

(Eulália sai.)

MÁRIO (nervoso) — Porra, mãe! Eu não pedi pra você me chamar às 7 e meia?!

MARISE — Mas eu chamei você, Mário.

MÁRIO — Mas eu não ouvi.

MARISE — Eu chamei você e sua irmã às 7 e meia. Ela levantou e foi à aula. E você eu chamei, não levantou, que se arranje!

MÁRIO — É, chamou uma vez só?!

MARISE (com os ânimos alterados) — Mário! Eu chamei, você foi dormir tarde, chegou ontem de madrugada, não conseguiu levantar. Aí, sua tia Léa e a Eulália ligaram pra ir buscá-las no aeroporto. Vieram sem avisar, eu tive que providenciar tudo na última hora. Foi aquela correria. Não podia ficar de babá, vendo se você tinha acordado, ou não!

(Arlindo entra na sala.)

ARLINDO — O que que tá acontecendo aqui?

MARISE — O Mário que tá dizendo que eu não chamei ele. Perdeu a hora! Chega em casa de manhã e quer acordar cedo. Devia ficar acordado direto. Vai da rua direto pra Faculdade! Não precisa nem passar em casa!

ARLINDO — Calma! Não vão brigar.

(Arlindo vai para a cozinha.)

MÁRIO — É, tá muito nervosinha hoje!

MARISE — É, nervosinha é? É que sou eu que faço tudo nesta casa! (Falando baixo.) As duas chegaram, e eu até agora não parei. E tô com a minha coluna me doendo! (E coloca as mãos na cintura.) Mário, a comida tá na geladeira. Você pegue e esquente no microondas.

MÁRIO — Acho que não vou almoçar, não.

MARISE — Não vai almoçar por quê, Mário?

MÁRIO — Não tô com fome, mãe!

MARISE — Mas vai ficar sem almoçar, Mário?

MÁRIO — É, mãe, vou ficar sem almoçar!

MARISE — Não tem jeito, não! Não tem jeito, não!

MÁRIO — É, não tem jeito! Alguém mais ligou pra mim?

(Marise pega um monte de papéis pequenos ao lado do telefone.)

MARISE — Está tudo anotado aqui. Sandra Regina (e lhe entrega um papel), Roseli (lhe entrega outro papel), Roberta (mais outro papel), Cristiane (outro papel), Kika (outro papel), Tina (outro papel), Vânia (outro papel) e... Manoel!

MÁRIO — Só essas pessoas que ligaram?

MARISE — Ah, pergunte pra sua avó ou pro seu pai. Alguém mais ligou pra ele, Dinho?

(Arlindo entra na sala comendo doce de goiaba.)

ARLINDO — Não, não atendi ninguém.

MÁRIO — Então se alguém ligar pra mim, diz que eu ligo depois. Vou cagar.

MARISE — Vai no lavabo que é pra deixar o outro banheiro livre pra elas.

MÁRIO — Ô, puta que pariu!

MARISE — Psiu! Não fica falando palavrão! O que que as duas vão pensar? Que eu não te dei educação.

(Mário sai da sala.)

MARISE — Só as sirigaitas que ligam pra ele! Não sei a quem saiu esse menino!

ARLINDO — A mim que não foi. Eu sempre fui tão quietinho...

MARISE — Quietinho?! Eu sei! O que que você tá comendo aí?

ARLINDO — Doce de goiaba. Quer um pouquinho?

MARISE — Mas você tá comendo doce, Dinho? Você não sabe que não pode comer, que o médico te proibiu de comer doce, Dinho?!

ARLINDO — Tô comendo só um pouquinho...

MARISE — Eu sei!

ARLINDO — E o médico não proibiu. Ele só falou pra não comer demais.

MARISE — E você já não comeu doce no almoço? Você fica comendo doce demais, depois não sabe porque tá engordando.

ARLINDO — Eu sou um pobre aposentado, será que eu não tenho nem o direito a comer um doce de goiaba?

MARISE — O médico vai te dar um pito!

ARLINDO — Ah, assim eu tô fudido, porra! Não posso comer mais nada!

(Toca o telefone. Marise atende.)

MARISE — Alô? Alô? Alô? Tá mudo, filho da puta? (E bate o telefone no gancho.) O filho da puta não quis falar nada!

(Toca o telefone de novo.)

MARISE — Atende você.

ARLINDO — Alô? Aqui é Arlindo. Oi, tudo bem. Ele está no banheiro. Tá, eu falo pra ele. De nada, tchau. (Coloca o fone no gancho.) Era a Pati pro Mário. Disse que liga depois.

MARISE — Tá vendo só?! A sirigaita não quis falar comigo! Só fala quando ouve voz de homem. Essa Pati, vou te contar! Pega no pé! Sente o faro quando ele acorda. Que horas são, hem? (Olha para o relógio na parede.)

ARLINDO — São 5 horas.

MARISE — Daqui a pouco vamos ter que levar a Lavínia em casa. Ela já está acabando de lavar o banheirinho lá fora.

ARLINDO (chateado) — Levar a Lavínia em casa!

MARISE — E temos que sair de fininho, senão a Eulália vem atrás. Quando fui comprar comida, pediu pra ir junto. (Fazendo voz de falsete.) “Não vim aqui pra tomar banho, vim pra passear.” Então, bico calado! Não fale que vamos levar a outra em casa.

(Toca a campainha e Marise atende pelo porteiro eletrônico.)

MARISE — Quem é? Quem é? Quem é? Ah, vá à merda! (E bate o fone no gancho.)

ARLINDO — Calma, Marise. Você tá muito nervosa hoje.

MARISE —É que eu tô por aqui! (E faz o gesto de passar o dedo no pescoço.)

(Marise sai e volta em seguida.)

MARISE — Anota aí no papel que a outra ligou.

(Arlindo pega um pedaço de papel ao lado do telefone, escreve o recado e sai. Mário entra na sala, vê o papel e lê. Percebendo algo no chão, se agacha e observa.)

MÁRIO — Ô, cacete!

(Ele sai pelo corredor, Lavínia entra em seguida.)

LAVÍNIA — Dona Marilza!

(Como ninguém aparece, ela sai. Mário volta à sala com uma garrafa de álcool na mão. Se agacha e derrama um pouco de álcool no chão. Fica olhando por alguns instantes e sai, levando a garrafa consigo. Lavínia entra na sala.)

LAVÍNIA — Dona Marilza!

(Léa entra na sala.)

LÉA — Ô, dona... Malvina?

LAVÍNIA — Lavínia.

LÉA — Pois é, Lavínia! Você já acabou o serviço?

LAVÍNIA — Ainda não. Falta terminar o banheiro lá de fora.

LÉA — Você não me engana, não! Estou sabendo que você gosta de uma bela pinga! Cachaça?! Não! Álcool puro mesmo! Não é? Pois sim. Se fosse na minha casa, não ia ter essa moleza, não! Era rua! A Marise é muito boazinha.

ZILÁ (entrando na sala) — Léa! Ó, minha irmã, você está aí? Estava lhe procurando.

(Lavínia sai de fininho.)

LÉA — Ô, Zilá! Você estava dormindo até essa hora? Não ouviu a máquina fazer barulho?

ZILÁ — Não! Que máquina que fez barulho?

LÉA — A máquina de lavar roupa. Escangalhou toda! Ficou fazendo um barulho medonho! Você deve ter um sono muito pesado, até a Eulália acordou.

ZILÁ — Ah, isso são os remédios que eu tomo. Tomo remédio pra dormir, remédio pra pressão, pro fígado, pros intestinos...

LÉA — É, vai se ficando velho, tem que tomar remédio. (E ri.)

ZILÁ — E a Eulália, onde está?

LÉA — Eulália foi tomar banho. Não sei que tanto essa menina toma banho.

ZILÁ — Deve ser alguma mania de limpeza.

LÉA — É toda cheia de mania!

(Léa sai da sala e Zilá a segue. Alice entra na sala, vai ao telefone e liga para alguém.)

ALICE — Oi, sou eu. Agora dá pra gente conversar. (Começa a tocar uma música bem alta.) O quê? Não tô ouvindo, fala mais alto. (Gritando na direção do corredor.) Abaixa a música que eu tô falando no telefone! (Voltando ao fone.) Ai, hoje tá ruim! (Gritando, novamente.) Vai dar pra abaixar essa música, ou tá difícil? Ai, não dá! Tá impossível falar no telefone hoje nessa casa! Amanhã eu te ligo! Tchau.

(Assim que ela põe o fone no gancho, a música pára e Mário entra na sala.)

MÁRIO — Pronto! Pode falar no telefone!

ALICE — Agora já desliguei!

MÁRIO — Então, foda-se!

(Cada um sai por um lado. Eulália entra na sala, carregando sua bolsa preta. Em seguida, entra Lavínia.)

LAVÍNIA — Dona Marilza!

EULÁLIA — Dona Marilza não está aqui.

(Lavínia a vê e fica sem ação de novo.)

EULÁLIA — Você já foi a um fonoaudiólogo?

LAVÍNIA — Não, senhora.

EULÁLIA — Eu vou procurar um pra você ir. (Se aproxima da mesinha do telefone e pega o catálogo telefônico. Coloca-o em cima da mesa grande e começa a folheá-lo até que encontra alguns endereços. Lavínia continua parada perto da porta da cozinha.) Aqui tem um. Me parece bom. Doutor Tupinambá Pacheco. Vou ligar lá e marcar uma consulta pra você.

(Eulália pega o catálogo e caminha em direção ao telefone. Lavínia está atônita.)

LAVÍNIA — Não precisa, não. Dona Marilza!

(Eulália que já estava segurando o fone na mão, o põe de volta no lugar.)

EULÁLIA — Não é Marilza, é Marise! Repita comigo: Ma-ri-se. (Lavínia paralisada.) Vamos, fale, Ma-ri-se. Ma-ri-se. (Lavínia não se mexe.) É não tem jeito. É língua presa! Vou ter que marcar uma consulta pra você.

(Eulália pega o fone e começa a discar. Marise entra na sala.)

MARISE — Tá ligando pra quem, Eulália? Ô, dona Lavínia, a senhora já terminou?

LAVÍNIA — Já, sim senhora.

EULÁLIA — Eu vou marcar uma consulta pra ela aqui no consultório do doutor Pacheco. Tupinambá Pacheco.

MARISE — Não, Eulália. Deixa isso aí! Ela não tem dinheiro pra pagar a consulta, menina!

EULÁLIA — Ah, não, é? (Coloca o fone no gancho.) Então tem que marcar pelo INPS.

MARISE — Não, Eulália. Não precisa você marcar pra ela, deixa que ela mesmo marca na casa dela, né, dona Lavínia?

(Lavínia apenas faz um movimento afirmativo com a cabeça.)

EULÁLIA — Agora não é mais INPS, né?

LÉA (entrando na sala) — Eulália! Eulália, minha filha, venha cá um instantinho.

EULÁLIA — Pra quê?

LÉA — Vem, minha filha. A Zilá quer lhe mostrar uma coisa, lá no quarto dela.

(Eulália está quase saindo, quando pára e vira-se na direção de Lavínia.)

EULÁLIA — Você pode fazer um plano de saúde. Fala aí com a Marise que ela conhece um plano. Não conhece, Marise?

MARISE — Conheço sim, Eulália. Tia, chama o Arlindo pra mim, por favor.

(Eulália sai, acompanhada por Léa.)

MARISE — Não liga, não, viu, dona Lavínia? É doença.

LAVÍNIA — Coitada, dona Marilza.

MARISE — A senhora já terminou?

LAVÍNIA — Já, eu vim avisar a senhora.

MARISE — Tá, nós já vamos levar a senhora.

(Lavínia sai e Arlindo entra na sala.)

MARISE — Dona Lavínia já acabou.

ARLINDO — E o Danilo, já foi?

MARISE — Já! O merdão foi embora e deixou tudo aí pra gente arrumar.

ARLINDO — Deixa aí mesmo, ele não vem amanhã?

MARISE — Sei lá se vem. É todo enrolado! Tem que levar filho no médico, mulher não sei aonde. Eu já tô de saco cheio! Vamos levar a outra embora!

(Marise e Arlindo estão quase saindo, quando Eulália entra na sala.)

EULÁLIA — Vocês vão aonde, hem?

(Marise fica sem ação.)

ARLINDO — Nós vamos levar a dona Lavínia em casa.

EULÁLIA — Ah!

ARLINDO — Quer ir?

MARISE — Dinho! Vamos embora!

EULÁLIA — Não, eu vou tomar banho.

(Eulália sai pela porta do corredor. Marise e Arlindo saem pela porta da cozinha. Léa e Zilá entram na sala.)

LÉA — Alice está estudando no quarto dela, é?

ZILÁ — Não sei, acho que está.

LÉA — E quede o Mário?

ZILÁ — Acho que está dormindo.

LÉA — Mas até a essa hora!?

ZILÁ — É, ele e a Alice gostam de dormir até tarde.

LÉA — Ah, mas dormir até tarde faz mal.

ZILÁ — É que eles saem muito. Saem à noite e voltam tarde.

LÉA — É essa juventude! (E ri.)

ZILÁ — Eles agora vão viajar. Agora nesse feriado. Vão em turma. Alice, Mário, mais os colegas. Acho que vão em oito. Rapazes e moças.

LÉA — Rapazes e moças, é?

ZILÁ — É, uma é namorada, a outra é noiva. Agora tá tudo diferente, não precisa mais casar virgem, já casa furada!

LÉA — É, no nosso tempo não tinha disso, não.

ZILÁ — Ah, é! Mamãe nos educava com mãos de ferro! Mas agora os tempos são outros!

LÉA — É, por isso que está tudo assim. Os casamentos não duram mais! Casam e no dia seguinte já estão se separando. Não vê os filhos da Iracema? Pois, então! É o que eu digo! Essa juventude de hoje não agüenta mais nada. Se descobre que tem outra, já manda embora!

ZILÁ — É, as moças de hoje não agüentam, não. Chutam! Antigamente, se aturava o marido por causa dos filhos. Sabia que o marido tinha outra, mas ficava com ele pra manter o lar!

LÉA — É! Agora não se pensa mais nos filhos!

ZILÁ — Eu vou tomar um pouquinho de leite, Léa, você não quer?

LÉA — É leite fresco?

ZILÁ — É o leite que eles compram aí. Leite Longa Vida.

LÉA — Ah, não toma desse leite, não. Esse leite tem formol.

ZILÁ — Tem formol, é?

LÉA — É, eles põe formol no leite pra conservar o leite. Não toma, não.

ZILÁ — É, então não vou tomar. Vou pedir pra Marise comprar do outro, o que vem no saquinho.

LÉA — Ih, esse também tem formol. Todos têm! O único que não tem é o que sai da vaca, aquele tirado na hora. Esse sim é puro! Mas se a vaca estiver com alguma doença, contamina o leite.

ZILÁ — Acho melhor tomar então só o café. Puro, sem leite.

LÉA — Café puro sobe a pressão! Não toma café puro, não. (E começa a tossir.)

ZILÁ — Você tá com tosse, é, Léa?

LÉA — Estava muito pior! O peito todo cheio de catarro! Mas já melhorei, senão não teria vindo pra cá. Dar trabalho pra vocês aqui. Mas eu tossia tanto que quando estava deitada, pra não ficar levantando pra escarrar, colocava um pano e cuspia no pano. E eu ainda tenho outro problema. Quando eu tusso, a urina sai por baixo. Aí ponho dois panos, um em cima e outro embaixo. (E ri.)

ZILÁ — E o Benedito, hem, Léa? Tem dado notícias?

LÉA — Ah, o Benedito me telefona todos os dias. Me convida pra ir conhecer a casa dele lá na Bahia, mas eu não vou por causa da Eulália, num sabe? Ele disse que ia telefonar pra cá. (Toca o telefone.) Ó, será o Benedito? (Atende o telefone.) Alô? Benedito? Estávamos falando em você! (Ri.) Falando bem, claro! Fizemos boa viagem, sim.

(Eulália entra na sala, sempre carregando a bolsa.)

EULÁLIA — Tá falando com quem, hem, mãe?

LÉA — É com o Benedito. É, Eulália tá aqui do lado.

EULÁLIA — Ô, tia, você acha que a minha mãe deve se casar com o Benedito?

LÉA — Eulália, fale mais baixo senão eu não escuto o que ele está falando. Não, Benedito, é com a Eulália aqui que eu estou falando. É... (E ri.)

EULÁLIA (falando alto) — Mas você acha, hem, tia, que a minha mãe deve se casar com o Benedito?

ZILÁ — Ah, Eulália, quem tem que decidir isso é sua mãe.

EULÁLIA — Eu acho que ela tem que se casar com ele, sim. Senão fica encalhada aí! (Falando mais alto ainda, perto do telefone.) Ô, Benedito, casa logo com a minha mãe que ela não agüenta mais esperar.

LÉA — Quê isso, Eulália? Tá bem, Benedito, amanhã eu ligo pra você. Até logo! (Coloca o fone no gancho.) Isso é maneira de falar, Eulália?

EULÁLIA — Eu vou comer alguma coisa.

(Eulália sai.)

ZILÁ — Porque a Eulália só anda com aquela bolsa, Léa?

LÉA — É porque dentro tem o retrato do pai, num sabe? Desde que o Franco morreu que ela só anda com o retrato dele na bolsa. E leva pra todo lugar que vai.

(Mário entra na sala.)

LÉA — Marinho! Acordou agora? (Vai em sua direção, abraça-o e o beija.) Como vão os estudos?

MÁRIO — Não tava dormindo, não, tia. E os estudos vão indo.

LÉA — É, vai ser engenheiro!

MÁRIO — É, vou sim, tia.

LÉA — Muito bem! Na família temos três engenheiros: meu pai era engenheiro civil assim como meu tio...

MÁRIO — Dá licença, tia.

(Mário sai pelo corredor.)

LÉA — Meu tio por parte de mãe também era engenheiro civil. E qual era o outro, Zilá?

(Alice entra na sala.)

ALICE — Cadê minha mãe?

ZILÁ — Sua mãe? Não sei onde ela foi, não.

(Eulália entra na sala.)

EULÁLIA — Foi levar a Lavínia em casa. Aquela que fala Marilza.

(Léa vê o chão molhado perto do telefone.)

LÉA — Olhe isso aqui, Zilá. Alguém derrubou alguma coisa no chão.

ZILÁ — Ih, é mesmo! Tá tudo molhado...

EULÁLIA — Acho que mijaram aí!

LÉA — Não fala besteira, menina!

EULÁLIA — Isso acontece. Os meus gatos só mijam na sala de jantar.

LÉA — Mas aqui não tem gato nenhum!

EULÁLIA — Pelo menos, é mais fácil de limpar. Porque se fosse cocô...

(Marise entra na sala.)

MARISE — Já fomos levar a dona Lavínia em casa e o Arlindo foi comprar pizza.

LÉA — Marise, olha isso aqui. Derramaram alguma coisa no chão.

EULÁLIA — Mijaram aí!

LÉA — Alice, minha filha, se abaixa e cheira isso aí. Pelo cheiro a gente descobre o que é.

(Alice, muito a contragosto, se agacha e cheira.)

ALICE — Tem cheiro de álcool.

MARISE — Álcool? Mas quem derramou álcool aí?

EULÁLIA — Mijaram álcool!

LÉA — Isso aqui tá me cheirando a...

ZILÁ — Dona Lavínia!

MARISE — Lavínia?! Será que a outra derramou álcool aí? Mas eu não mandei ela limpar essa sala!

ZILÁ — E você não escondeu a garrafa de álcool?

LÉA — Ela deve é ter bebido!

EULÁLIA — Quem é que bebeu álcool aí, hem?

ALICE — A Lavínia.

LÉA — Eu avisei!

MARISE — Mas não pode ser! Eu escondi a garrafa no armário do corredor e tranquei com a chave. Alice, você cheirou isso direito?

(Alice se agacha para cheirar de novo.)

LÉA — Eu avisei! Essa história de ter empregada pinguça não ia acabar bem!

EULÁLIA — Lavínia pinguça?

MARISE — Mas eu e o Arlindo acabamos de levá-la em casa. Ela não tava com cara de quem tinha bebido. É álcool mesmo, Alice?

(Alice faz um movimento afirmativo com a cabeça.)

EULÁLIA — Vai ter pizza no jantar, é?

LÉA — Quem está acostumado a beber, não demonstra que está bêbado.

ARLINDO (entrando com uma embalagem de pizza na mão) — Quem tá chumbado, aí?

MARISE — A outra encheu a cara e derramou álcool no chão.

ARLINDO — Quem encheu a cara?

LÉA — Eu avisei! Não quiseram me ouvir!

MARISE — A Lavínia! Quem mais poderia ser?

ZILÁ — Bebida é um caso sério!

EULÁLIA — Vamos comer a pizza, Arlindo?

MARISE — É, agora não adianta mais trancar a porta do armário... Mas eu tô encucada como é que ela conseguiu abrir o armário se a porta estava trancada?

LÉA — É, minha sobrinha, viciado sente o cheiro do álcool!

ZILÁ — Bebida é um caso sério!

EULÁLIA — Vocês não vão comer a pizza, não?

ARLINDO — Deixa isso pra lá! Vamos comer a pizza, né, Eulália? Deixa a pinguça pra lá.

MARISE — É que se ela roubou a garrafa de álcool, pode roubar outras coisas também, não é, tia?

LÉA — É! Começa furtando pequenas coisas, pra depois furtar coisas maiores e de mais valor.

ZILÁ — Bebida é um caso sério!

LÉA — Eu mesma tive uma empregada que roubava meus pertences, começou roubando sal e depois veio a roubar minhas jóias!

EULÁLIA — Que história é essa que você nunca me contou?

MARISE — Eu vou lá no armário do corredor ver se a porta foi arrombada.

EULÁLIA — Que empregada foi essa, dona Léa?

(Marise está quase saindo quando esbarra em Mário entrando na sala.)

MARISE — Oi, meu filho. Você não sabe da maior! A Lavínia arrombou a porta do armário do corredor pra pegar a garrafa de álcool que eu tinha escondido lá.

LÉA — E cuidado aí, Mário, pra não pisar no vício!

(Mário olha para o chão.)

MÁRIO — É isso aqui que vocês tão pensando que a outra derrubou?

ARLINDO — Bom, eu vou comer minha pizza!

EULÁLIA — Boa idéia, Arlindo!

LÉA — É, ela derrubou álcool aí!

MÁRIO — Mas isso aqui fui eu que derramei álcool no chão pra matar umas formigas.

MARISE — Foi você, Mário!

ALICE (rindo) — E todo mundo pensando que tinha sido a Lavínia que tinha enchido a cara!

ZILÁ — Esta não!

LÉA (começa a rir) — Essa foi boa!

EULÁLIA (rindo) — A dona Léa não esperava por essa, hem, mãe?

ARLINDO — Ficam fazendo drama à toa...

MARISE — Mas que idéia é essa de matar formiga com álcool, Mário?

MÁRIO — Elas morrem. Você não viu aí?

ALICE — Elas bebem o álcool e morrem.

EULÁLIA (rindo) — Morre de porre!

MÁRIO (agachado) — Se tivesse olhado melhor, ia ver que tem um monte de formiga morta aqui.

LÉA — Da próxima vez, coloca veneno. Tem um veneno que é muito bom...

ARLINDO (ainda com a pizza na mão) — Vamos comer a pizza ou ainda vai ter segunda parte?

LÉA — Eu não me lembro o nome agora, mas é um veneno muito bom. Na minha casa também apareceram algumas formigas, algumas não, centenas delas, mas aí eu coloquei esse veneno...

MARISE — Tia, vamos jantar?

(Arlindo vai para a cozinha e Alice sai pela porta do lavabo.)

ZILÁ — É, formiga é um caso sério!

(De repente, todas as luzes se apagam.)

MARISE — O que foi isso?

MÁRIO — Faltou luz!

LÉA — Eulália, onde você está?

EULÁLIA — Tô aqui, dona Léa.

MARISE — Eu vou buscar uma vela no armário do corredor.

(Marise sai.)

ARLINDO (entrando na sala) — Marise, qual é o número da Força e Luz?

MARISE (gritando do corredor) — Sou uma só! Não posso ver tudo ao mesmo tempo!

LÉA — Tem lanterna, Arlindo?

MÁRIO — Tem, mas tá no carro.

LÉA — Então pega a lanterna, Mário.

MÁRIO — Tem que procurar a chave do carro primeiro.

(Marise entra na sala.)

ZILÁ (gritando) — Marise! As velas estão na segunda prateleira do armário.

MARISE — Já achei as velas, agora tô indo pegar o fósforo. Sai da frente que eu quero passar! (Marise vai para a cozinha.)

LÉA — Mário, onde está a chave do carro?

MÁRIO — Não sei, o paizão que sabe.

LÉA — Arlindo, me diz onde está a chave que eu vou pegar.

ARLINDO — Ninguém sai do lugar! Alice!

ALICE (gritando) — Tô no lavabo!

ARLINDO — Tá fazendo o que aí?

ALICE — Tô fazendo cocô!

MÁRIO — No escuro?

ALICE — É, qual o problema?

(Marise entra na sala segurando um castiçal com uma vela acesa, duas apagadas e outro castiçal.)

MARISE (dirigindo-se a Arlindo) — Toma a vela! Agora procura o número.

(Arlindo pega o castiçal com a vela e começa a procurar o número no catálogo telefônico. Léa acende as outras duas velas. Uma coloca em cima da mesa grande, apoiada no castiçal que Marise trouxe, a outra fica segurando.)

LÉA — Marise, tem que ter mais castiçal.

MARISE — Não tem mais castiçal nenhum!

LÉA — Pega um copo lá, Zilá. (Zilá sai.) Eulália! (Eulália não está na sala.) Onde será que Eulália se meteu, meu Deus?

(Zilá volta à sala trazendo o copo. Léa coloca a vela acesa no copo.)

MARISE — Me dá a vela que eu tenho que mijar! (Pega a vela das mãos de Léa e sai pelo corredor.)

LÉA — Eulália!

ALICE (gritando do banheiro) — Alguém poderia fazer o favor de me trazer uma vela aqui no banheiro.

LÉA — Zilá, leva essa vela lá pra ela que o Arlindo tem outra ali.

(Zilá pega o castiçal com a vela que estava em cima da mesa e sai.)

LÉA — Eulália! Eulália! Onde você está, Eulália?

ARLINDO — Achei! Achei o número!

(Nesse momento, a luz retorna. Todas as luzes são acesas. Arlindo fecha o catálogo com raiva. Mário começa a rir. Marise, Zilá e Alice entram na sala.)

MARISE — Ainda bem que a luz voltou! (Olha para todo o mundo.) Tia, cadê a Eulália?

LÉA — Pois é, já chamei e ela não apareceu... (Eulália entra na sala.) Onde você estava, Eulália?

EULÁLIA — Tava vendo a Lua!

LÉA — Ora! Isso é hora de ver a Lua?! Tô aqui te procurando, chamando e você lá fora vendo a Lua!

EULÁLIA — A dona Léa tá nervosa.

MARISE — Bom, vamos jantar? Que deve tá todo mundo com fome.

(Todos saem da sala pela porta da cozinha. A luz se torna fraca. Marise entra na sala abraçada com Arlindo. A luz volta ao normal.)

ARLINDO — Já foram dormir?

MARISE — Graças a Deus! Pensei que esse dia nunca fosse acabar.

(Toca o telefone. Marise atende.)

MARISE — Alô? Alô? Alô? Ah, comadre, é você? Tá, tá tudo bem por aqui. Você tá falando da onde? Da rodoviária?!

(Marise e Arlindo se entreolham e ficam imóveis. Fim.)