Sucesso

Aquele dia era seu. Finalmente seria reconhecido como grande escritor. Apareceria em todos os meios de comunicação. Seus livros venderiam como nunca. Seria parado nas ruas, faria sucesso!

“Todos saberão quem é Gilberto Vasco. O maior escritor vivo!”

Enfim, chegara o dia de sua entrevista no programa mais respeitado da TV. Falaria de seus livros. Ficaria famoso. Um nome do qual seu país se orgulharia.

Almoçou no mesmo restaurante de sempre. O dono pendurava suas contas.

— Você verá, João, seu restaurante entrará para a história como sendo o lugar onde Gilberto Vasco fazia suas refeições!

— O senhor ainda não pagou a conta do mês passado.

“Sujeito sem sensibilidade. Só pensa em dinheiro!”

Comeu pouco com medo de que parecesse gordo na televisão. Há dias vinha fazendo ginástica, mas a ansiedade o fazia comer demais. Pelo menos nestas horas, a falta de dinheiro ajudava, e ele não podia comprar todos os doces da padaria ao lado.

De volta ao apartamento, ensaiou algumas falas para dizer no programa. Em duas horas, tinha que estar no estúdio. Como o programa era ao vivo, não poderia se atrasar, senão sua participação seria cancelada.

“Vou pegar um táxi agora mesmo. Antes chegar cedo do que perder esta chance. Há anos venho lutando por uma oportunidade de mostrar o meu trabalho. Por mais rápido que seja, aparecer na TV faz qualquer um se tornar conhecido. E os meus livros dependem disso. Ninguém sabe que livros escrevi! Ninguém sabe nada!”

Nervoso, ajoelhou-se diante da imagem de um santo que sua mãe lhe dera.

“Mãe, eu lhe prometo que a minha vida não será em vão. Você terá orgulho de mim! Meu Deus, por que minha mãe morreu antes que eu mostrasse a ela que eu não sou um inútil, como ela dizia?!”

O telefone tocou despertando-o.

— Alô? Mãe!? Sim, é hoje minha entrevista na televisão. Vou ficar famoso. Você terá orgulho de mim. Obrigado, mãe, por tudo. Agora eu tenho que ir. Um beijo.

Vestiu a roupa alugada na véspera, certificou-se do endereço e desceu para pegar um táxi. Na Marginal do Tietê, um longo congestionamento o deixou preocupado. O motorista permanecia calado, mas de vez em quando soltava um palavrão.

Quarenta minutos depois, haviam conseguido atravessar a Marginal. Com o calor, sua camisa branca ficara manchada de suor, deixando-o ainda mais irritado. Olhava para o relógio insistentemente. Faltavam vinte minutos para o começo do programa.

— Não posso me atrasar! Hoje é meu grande dia! Todo mundo vai me ver na televisão.

— O senhor é artista?

— Eu sou um grande escritor! Minha vida inteira dedicada à literatura! Sempre lutei para publicar meus livros. Ninguém dá valor à cultura neste país. Eu quero ser reconhecido por todos! Quero que leiam meus livros, me peçam autógrafos, me venerem como a um deus! Minha mãe morreu sem ver o meu sucesso. Morreu indignada por não ter o filho reconhecido pelo seu talento. Eu tenho o meu valor! Eu contribuo para a cultura deste país! Tenho direito a ser uma celebridade também!

A emoção o dominou. As lágrimas caíam sobre seus livros.

— Eu sempre quis que minha mãe tivesse orgulho de mim. Eu mostrava meus livros às pessoas e elas diziam que eles eram ruins. Elas nunca leram meus livros! Minha mãe dizia que eu não sabia escrever. Ela acreditava nestas pessoas invejosas que diziam que eu copiava livros famosos. Tinham inveja do meu talento. Minha mãe nunca leu meus livros. Nunca leu!

— Senhor, chegamos!

Transtornado, jogou em cima do taxista todo o dinheiro que trazia. Pegou seus livros e correu para a porta do estúdio. Um segurança o impediu de entrar, alegando que o programa já havia começado.

— Eu tenho que entrar, não posso perder esta chance!

Com medo de escândalo, funcionários do estúdio abriram a porta e deixaram-no entrar.

— A Marginal estava congestionada. Mas, graças a Deus, consegui chegar a tempo.

— Quem é o senhor?

— Gilberto Vasco. Eu tenho uma entrevista marcada pra hoje.

— O senhor deve ter se enganado. Não há nenhuma entrevista com o senhor agendada pra hoje.

“Eles não podem falar assim comigo!”

Com o olhar furioso, procurou pelo apresentador. Estava lá, na poltrona de sempre, conversando com um convidado.

“Canalha, me prometeu fama e dinheiro! Sim, quem é que não quer isto? Ninguém merece mais do que eu!”

Correu em direção ao apresentador, sacou um revólver e lhe deu dois tiros. Quando ia dar o terceiro, foi impedido pelo pessoal da produção. Com a mão no coração, o apresentador permaneceu inerte na poltrona. O sangue jorrava de seu peito, manchando a camisa.

— Corta! Corta!

— Não adianta mais! O programa é ao vivo! Todo mundo me viu!

Arrastado pela equipe do programa, foi levado para o distrito policial mais próximo. No caminho, gritava como louco:

— Todos me viram na TV! Finalmente serei reconhecido! Mãe, agora você tem do que se orgulhar! Meu nome sairá nos jornais! Serei um sucesso!