
| O salvamento | ||
A pequena Carina brincava no parquinho quando ouviu sua cadela, Lola, latir. O latido era alto, constante, parecia um grito de socorro. A menina, de apenas quatro anos, entendeu o chamado da companheira. Correu em direção à sua casa, onde deixara a cadela presa, a dois quarteirões dali. O pai, que a acompanhava naquele passeio de domingo, percebeu a corrida da menina e foi atrás. Chamava-a pelo nome, mas em vão. Carina só parou quando, ao tentar entrar na casa, uma onda de fumaça a expulsou. A casa, um barraco construído com papelão, se tornara alvo fácil de um curto-circuito na gambiarra mal feita. O fogo alastrava-se rapidamente. A menina permaneceu assustada em frente a casa até seu pai chegar e tirá-la de lá. Os moradores dos outros barracos vieram tentar apagar o incêndio, que já alcançava os barracos vizinhos. Tomado pelo desespero, seu José, o pai da menina, mandou a filha correr para bem longe, enquanto tentava salvar o seu patrimônio. Carina até pensou em obedecer, mas ao ouvir o latido de sua cadela, cada vez mais agonizante, correu em direção ao fogo. A menina só pensava em salvar seu bichinho de estimação, companheira de brincadeiras pelo bairro. Por uma coincidência funesta, era a primeira vez que Lola ficara presa dentro do barraco. Estava para ter filhotes e Carina pedira ao pai que deixasse abrigar a cadela, pelo menos até nascerem os cachorrinhos. Carina, com seu tamanho de menina, passou despercebida pelos adultos. Entrara no barraco em chamas e não saíra mais. Depois de apagado o fogo, com a providencial vinda dos bombeiros, seu José deu por falta da filha. Ele não a encontrara em lugar algum. Procurara por toda a vizinhança, sem sucesso. Ninguém a tinha visto. De repente, uma dor profunda no peito o fez sentar-se no chão. Ele sabia que dor era aquela. Não era uma dor física, que se cura com analgésicos. Era a dor da perda. Alguns vizinhos vieram lhe consolar, afinal nenhum corpo havia sido encontrado. Mas ele se lembrava da cadela presa no interior do barraco e da menina correndo pelas ruas. Ela havia escutado o latido e foi salvá-la. Ele tinha certeza. Carina adorava a cadela, faria tudo para salvá-la da morte, ainda mais agora que Lola esperava filhotes. Conhecia a menina como ninguém. Desde que a mãe abandonara a família para viver com outro, ele assumira a criação da filha. A única que tivera. Os bombeiros ainda recolhiam os escombros, quando seu José se aproximou das cinzas. Caminhou por entre os restos de sua casa na esperança de recuperar alguma coisa. Mas nada havia para recuperar, somente a sua própria vida, que se esvaía lentamente à medida que a noite vinha e a filha não aparecia. Com a noite escura, os bombeiros foram embora e seu José permaneceu ali, sentado, olhando o fim de tudo. Um som familiar o despertou do transe. Era a cadela Lola que se aproximava cuidadosamente. Seu José a examinou com o olhar, não havia nenhum ferimento. Parecia ter escapado por milagre. Ficou pensando na filha que não tivera a mesma sorte. Num estalo, achou que ela ainda estaria viva. Se a cadela escapara, ela poderia ter conseguido também. Talvez estivesse escondida, com medo de aparecer e levar uma repreensão. Levantou-se e começou a chamar pela filha. Gritava seu nome e lhe prometia não ficar zangado com o seu ato impensado. A voz já diminuía, quando foi interrompido pelos latidos de Lola. Seu José olhou em direção à cadela e percebeu que ela trazia algo preso à boca. Abaixou-se para ver melhor e foi tomado por um súbito desespero. Lola trazia, pendurada em seus dentes, a correntinha que Carina nunca tirava do pescoço. O homem que perdera a casa e tudo o que possuía, agora tinha certeza que perdera também a filha, a sua família. O desespero se transformou em ódio e ele passou a atirar pedras na cadela. Culpava-a pela morte da filha. Lola correu assustada, desaparecendo na escuridão. Seu José ficou ali, sentado, vendo a noite passar. Já quase amanhecendo o dia, presenciou uma cena que, pelo resto de sua vida, jamais saberá se foi sonho ou realidade. Com uma luz branca e brilhante ao fundo, Carina apareceu de repente. Estava fisicamente perfeita. Com um sorriso terno nos lábios, aproximou-se do pai. Disse-lhe para não ficar triste, porque ela iria continuar ao lado dele. Pediu-lhe também que não se zangasse mais com Lola, pois ela não tinha culpa de nada. Sem que seu pai tivesse tempo para agir, Carina desapareceu. Atordoado, seu José acreditou estar sonhando, mas resolveu levar a sério o pedido da menina. Levantou-se dos escombros como se emergisse para a vida. A visão que tivera de sua filha saudável e feliz o deixara mais calmo. Uma estranha paz o invadira. A dor no peito não mais o acometia. Decidido a procurar a cadela, saiu pelas ruas do bairro. Ao chegar ao parque, onde Carina gostava de brincar, ouviu um gemido. Lola estava deitada sob uma árvore e havia acabado de dar à luz. Somente um filhote havia nascido. Seu José se aproximou devagar, com medo da reação da cadela. Contrariando os instintos maternais de que José tinha notícia, Lola deixou que ele pegasse seu filhote nas mãos. Seu José, então, percebeu que era uma fêmea. Emocionado, deu um nome à cadelinha: Carina.
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