Aline Ponce
gatos e letras
Questões de segurança
 

Depois de alguns anos sem usar meu cartão de crédito múltiplo, resolvi cancelá-lo e ficar com um apenas para transações bancárias. Depois de ouvir pacientemente pela milionésima vez todas as vantagens do cartão de crédito múltiplo, consegui convencer o atendente que eu me contentava com um simples acesso ao caixa eletrônico. Passado o primeiro obstáculo, restava ligar para o Disque Banco e pedir o novo cartão de débito. Nem de longe imaginei o que viria a seguir.

A moça do Disque Banco disse que eu precisava ir à agência para pedir o novo cartão. Fui. Expliquei meu caso e o rapaz me atendeu prontamente. Disse que o cartão chegaria pelos Correios em dez dias. Ótimo, pensei. Mais ótimo ainda quando o cartão chegou antes do tempo previsto. Fui correndo ligar para o Disque Banco pedir a nova senha. Mas a alegria sumiu quando a moça que me atendeu disse que a numeração do novo cartão ainda não havia chegado ao sistema. Curioso, os Correios foram mais rápidos que os computadores. Mistérios da modernidade, pensei.

Depois de dois dias, liguei novamente. Ufa! a numeração havia chegado. Que bom, pensei. Que bom nada! Fui ao caixa eletrônico testar minha nova senha e o caixa recusou as duas tentativas. Não tentei uma terceira com medo de ter meu novíssimo cartão cancelado por suspeita de tentativa de fraude. Voltei para casa. Liguei para o Disque Banco. Expliquei o caso. A atendente confirmou minha senha e o desbloqueio do cartão e disse que poderia ser problema na tarja magnética, para eu ir à agência resolver o problema. Era sexta-feira, cinco horas da tarde. Pacientemente, esperei a segunda-feira chegar. Antes de falar com alguém, resolvi fazer um novo teste, dessa vez em outro caixa e, para minha surpresa e alegria, tudo funcionou perfeitamente. Voltei para casa.

Passados alguns dias, fui fazer uma transferência pelo Internet Banco. Acessei normalmente, mas quando apertei o OK autorizando a transferência, recebi uma mensagem dizendo que meu cartão estava cancelado. Claro! havia digitado a senha antiga. Voltei à página anterior e digitei a nova senha. Novamente a mesma mensagem. Minha nova senha ainda não chegou ao sistema, pensei. Liguei para o Disque Banco e a moça disse que eu tinha que ligar para o 0800. Liguei. A voz gravada pediu para eu digitar minha conta e minha senha. Digitei a senha nova. “Senha incorreta. Por favor, digite sua senha novamente.” Digitei a senha antiga. “Senha incorreta. Por favor, digite sua senha novamente.” Ah, vá à merda!, pensei. Liguei novamente e aguardei a gravação me dizer qual o número para eu falar com a atendente. Para meu espanto, não havia atendentes. Ou digitava a senha, ou caía fora. 0 - saída.

O que fazer? Entrei no site e procurei outro número de telefone. Sabia que havia um em que eu era atendida por um ser humano, quando tive que pedir o desbloqueio do meu acesso ao Internet Banco, depois de preencher o formulário de cadastro. Depois de quinze minutos procurando, descobri que para ter acesso a este número, eu teria que preencher novamente o formulário. Talvez tenha guardado este número num papel, pensei. Guardei coisa nenhuma. Depois que verifiquei o funcionamento do sistema, joguei-o fora. Não vou precisar, pensei na época.

Depois de alguns dias atarefada, consegui um tempo livre para ir à agência. Expliquei o caso. O rapaz disse que não poderia fazer nada, que eu ligasse para o Disque Banco. Expliquei o caso novamente. Para meu alívio, ele não só entendeu, como tentou me ajudar falando com uma moça do Disque Banco. Alívio que durou pouco. Eu teria que ligar para o Disque Banco e pedir que alterassem a senha no sistema do Internet Banco. Perguntei se ele não sabia um outro telefone, mais direto. Disse para eu perguntar no Disque Banco.

Voltei para casa. Liguei. Expliquei o caso. A atendente disse para eu ligar para o 0800. Expliquei o caso novamente. Ela disse para eu ir à agência. Expliquei o caso mais uma vez. Ela disse para eu esperar uns quinze dias, que às vezes o sistema demora. Já se passaram 21 dias, expliquei. Ela chamou outra atendente para falar comigo. Expliquei o caso. Três vezes. Perguntei se não havia outro número de telefone para me ajudar. Ela só sabia o 0800. Tá difícil, pensei. Finalmente, ela disse que não poderia mudar minha senha, pois só o usuário pode fazer isso e me aconselhou a entrar no site e eu mesma alterar minha senha. Expliquei que a única senha que me permitem alterar é a senha de acesso, não a senha do cartão. Então, disse-me que a única solução seria eu fazer o cadastro novamente. E o cadastro antigo?, perguntei. “Descadastre-se e cadastre-se novamente com a nova senha.”

Bela solução, pensei. Entrei no site sem muita esperança, que acabou de vez, quando descobri que para me descadastrar eu tinha que digitar a senha do cartão. Chega! vou ligar para o ombudsman. Liguei. Expliquei o caso cinco vezes. Todas as possibilidades haviam se esgotado. E ele ainda teve coragem de me dizer que não poderia fazer nada, que eu ligasse para o Disque Banco por questões de segurança. “Só lá eles podem verificar seus dados pessoais no sistema.” Para saber que eu sou eu, pensei.

Numa última tentativa, resolvi mandar um e-mail para o banco. Quem sabe?, pensei, já cansada de pensar. Mas quando fui acessar minha caixa de correio, surgiu na tela, diante de meus olhos incrédulos e desesperados, a mensagem de senha incorreta.


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