No presente, o passado

“No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar,
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade pra lá.”
Chico Buarque, Roda Viva.

Recebi pela internet uma mensagem, dessas direcionadas a vários destinatários, que pedia, a quem pudesse colaborar, um comentário sobre o escritor infanto-juvenil Ganymédes José.

“Meu escritor preferido! Vou responder agora mesmo!”

Quis fazer uma citação no meu comentário e agora estou aqui, abrindo minha biblioteca, à procura dos livros que compõem a coleção A Inspetora, uma das coleções escritas por ele. Mal abro a porta e os vejo. Estão todos juntos, o mesmo padrão de capa faz com que uma mancha marrom se destaque dos demais livros enfileirados na prateleira. Ansiosa, quero encontrar logo o primeiro título que li, a razão de ter vindo aqui, a citação no comentário. O medo de não conseguir lembrar, porém, amolece meus movimentos. Percorro os volumes com a ajuda do dedo indicador, os primeiros que repasso não são, tenho certeza, mas se chegar até o fim e não... Ah, lembrei! É A Inspetora e o Caso do Ladrão Invisível. Retiro-o depressa, afoita para vê-lo inteiro em minhas mãos. Enquanto leio novamente o título, as imagens da capa confirmam a lembrança. Passo os dedos por cima delas, como quem acaricia uma saudade. Sinto que o passado sempre volta. Como pedras de dominó que caem umas sobre as outras, vou pegando os outros volumes; quero ver todos. Sento com eles no chão. Todos me possuem, minhas horas de leitura; partes de minha infância consumidas por aquelas histórias, aquelas vidas inventadas, presas no papel e soltas na minha imaginação. As letras grandes pareciam menores quando o mundo parecia maior.

Seguro o primeiro volume novamente, o responsável por tudo. Folheava uma dessas revistas inofensivas de palavras cruzadas da Ediouro, parece que estou vendo, de repente um encarte, com os livros da editora à venda por reembolso postal. Gosto do título, peço para o meu pai. Como pode um único livro perdido num encarte ser o responsável por tudo? A leitura é um crime, corrompe, nos transforma. Eu nunca havia pensado em ser escritora. Eu li a primeira história, descobri que pertencia a uma coleção, quis tudo. Quis me perder de vez, mergulhar fundo, viver outras vidas e então descobri quem eu era. Eu queria também criar, ser deus, ser dona dos personagens, ser dona da imaginação dos outros, fazê-los percorrer os meus caminhos. Era isso. É isso.

Como pode um único livro ser o responsável por tudo? O primeiro que tentei escrever, totalmente inspirado na A Inspetora, não cheguei a terminar, mas ainda guardo os originais, assim como não me desfaço desta coleção. Quero colocar os títulos em ordem numérica, começo a procurar o pequeno número inscrito na lombada, um motivo a mais para manuseá-los, mantê-los próximos; reviver o perfeccionismo da infância, quando os guardava assim e ai de quem tirasse da ordem! Conto, são 38 volumes. Os três últimos não foram lidos. Nunca me perdoei por isso. Mas a consciência me diz que é porque não quero fechar um ciclo, preciso mantê-lo aberto, preciso manter o autor vivo, como se houvesse sempre um novo livro seu à minha espera.

Procuro pela sua biografia. Não acho nesse, nem neste, nem... Não tem em nenhum. Mas sei que já morreu. Fiquei triste quando soube, a mesma tristeza de se perder um pensamento bom. Ainda estava vivo quando descobri que ele existia. Os outros escritores sempre tinham datas de nascimento e morte, o que me fazia pensar que eram entidades superiores, inatingíveis. Se eu pudesse voltar no tempo, eu poderia até tocá-lo e falar: “Puxa, você existe mesmo!” Ele sorriria carinhoso e saberia que sua vida não foi em vão. Pois seria assim que eu me sentiria em seu lugar.

Pego o volume mais danificado, o tempo não perdoa ninguém, não se pode voltar atrás, nem colando as partes rasgadas. Ao abri-lo, ouço o barulho da cola se desfazendo e uma traça despenca ao lado do meu pé.

– Maldita! Você nem sabe o quanto estas páginas significam pra mim e fica aí roendo palavra por palavra!

Cutuco a traça com a ponta do livro. Parece morta.

– Está tudo tão velho que até a traça já morreu.

Jogo o livro no chão. Ele se abre e novamente ouço a cola desmanchar-se.

– Perdão, Ganymédes, sei que não tenho cuidado bem dos seus livros.

Apanho o livro devagar como quem segura um passarinho machucado.

– Eu sempre quis encontrá-lo.

Observo as páginas abertas.

– Uma das magias da Literatura: os leitores sempre querem encontrar o autor que os marcou de alguma forma, como o mortal que precisa conhecer seu deus para entender sua própria vida.

A página da direita é meu número da sorte: 23.

– Por que a Literatura Infanto-Juvenil é subvalorizada?

Exatamente a que está em pior estado.

– Porque subvalorizamos os jovens leitores.

Há manchas amareladas por toda a folha.

– Mas devia ser o contrário! É justamente nesta fase da vida que, ou viramos leitores para sempre, ou enterramos de vez os livros.

Encosto o dedo indicador no papel.

– Não se pode obrigar ninguém a ler. A leitura tem que ser despertada.

Como uma renda que se desfaz com o tempo, a folha se esfarela com o toque.

– Por que Harry Potter faz sucesso? Histórias fantasiosas atraem mais? Será que as crianças precisam se afastar da realidade em que vivem?

Um pouco de pó branco cai no chão.

– Os personagens principais da Inspetora moram numa fazenda, cuja única diversão é andar de bicicleta pela cidadezinha em que todos se conhecem.

Examino novamente a folha deteriorada.

– Era justamente isso que eu invejava neles. Eu mal podia sair na rua.

Constato que apenas um pedaço da página foi esfacelado.

– Um dos prazeres da leitura: poder viver mundos diferentes.

Por sorte, não perdi nenhuma palavra.

– Mas não é melhor aproximar a história contada da realidade dos leitores? Colocar a internet como personagem não vai atraí-los mais?

Percebo que as manchas são na verdade vestígios de traça.

– Uma boa história, com muita ação e suspense, é o que atrai o jovem leitor.

Seu rastro revela uma camada mais fina da folha.

– Mas só ação e suspense não faz o livro descartável demais? Não é preciso mais questionamentos, ponderações?

As letras carcomidas parecem sombras esmaecidas.

– Lições de moral são vazias de significado para as crianças, que logo percebem que estão sendo enganadas.

Fecho o livro com cuidado.

– Em todos os livros da coleção havia um tipo de delito e os criminosos sempre eram pegos. Este não é o final moralmente aceito?

Abro a contracapa.

– A criança e o jovem não aceitam a solução fácil, mas se a conclusão vem do esforço dos personagens, o final será aceito porque é legítimo.

Um pó amarelo cai no chão.

– Porém o mais importante nas histórias era a amizade, o companheirismo, que norteava os quatro personagens principais.

Examino a cola.

– Aliados ao senso de justiça que os faziam procurar os culpados...

Pequenos pedaços de cola estão soltos.

– Eram crianças sem problemas socioculturais, portanto bem educadas, com noções claras de certo e errado, ao contrário de outros personagens. O Amarelinho, por exemplo, era um menino pobre cujo maior sonho na vida era ser ladrão de bancos e ter uma metralhadora.

Tento tirar os pedaços soltos.

– Histórias de caráter social são mais importantes?

Outras partes da cola se rompem.

– Geralmente são as que ganham prêmios. Mesmo as que são despretensiosas têm seu valor, já que podem despertar o gosto pela leitura.

Um maço se desprende.

– Mas será que vale tudo para despertar o gosto pela leitura? Não quero escrever um amontoado de bobagens e dizer que isso é pra criança. Como também não quero fazer manuais adolescentes de como se perder a virgindade em dez lições. Quero fazê-los pensar.

Tento colocar o maço de volta.

– Literatura Infanto-Juvenil não é tão simples quanto parece. A linguagem é que precisa ser simples. Mas escrever fácil é uma arte difícil.

Não consigo encaixá-lo.

– E como saber se um texto vai agradar às crianças?

Dou pequenas batidas com as pontas dos dedos.

– Todos fomos crianças um dia, basta pensar como elas.

O pó branco cai novamente no chão.

– Mesmo que se tente, nada será como antes.

De súbito, lembro-me da página corroída. Abro o livro à sua procura. Enquanto folheio, mais pó cai no chão. Chego ao fim sem encontrá-la. Volto a procurar, agora pelo número da página. Encontro a 22 e a 25 lado a lado. Ao meio, os últimos grãos caem.

– Ainda tinha tanta coisa pra te falar, Ganymédes José. Mas eu nunca saberei suas respostas, assim como você nunca saberá minhas perguntas. O passado é como uma página roída: impossível recuperar.

Fecho o livro.