| Manifesto contra o circo dos animais |
Quando eu era criança, meus pais me levavam ao circo de vez em quando. Gostava de ver os artistas que lá trabalhavam, mas quando via os animais em cena, sentia-me desconfortável. Ao contrário dos outros espectadores, não via graça nenhuma. Achava os olhos do elefante, do tigre, do urso e de todos que apareciam no palco, tristes, apáticos. Como se eles não quisessem estar ali, ou não sentissem nenhum prazer em fazer as evoluções exigidas. Mas eu não entendia porque, aparentemente, só eu me sentia assim. Já adolescente, nas aulas de biologia, aprendi que os animais do circo são condicionados a realizar tarefas mediante uma recompensa: comida. Fiquei revoltada, mais ainda porque parecia que todo o mundo achava normal. “Fazem isso há tanto tempo!”, disse-me um colega, como se fosse uma justificativa. “Os animais têm que trabalhar para poder comer, assim como nós”, disse o professor. “Mas nós somos livres para escolher”, pensei. Decidi que nunca mais iria a um circo. Não daria dinheiro a seus donos, nem aplaudiria a crueldade cometida contra os animais dentro e fora do picadeiro. No circo deveriam trabalhar somente pessoas, que estão ali porque querem, porque gostam. Não tenho nada contra trapezistas, malabaristas e todos os outros artistas que se apresentam na arena e vivem desta arte. Mas não existe arte em fazer um animal penar. Se o deixam sem comida para que possa fazer o número ensaiado, estão deixando-o com fome. Estão lhe tirando o que é básico para sua sobrevivência. Um dia, soube pela TV que um circo que se apresentava na minha cidade havia sido denunciado por maus-tratos aos animais. Tigres e elefantes eram mantidos presos em jaulas quase do mesmo tamanho que eles. Além do reduzido espaço para se movimentarem, as jaulas estavam sob o sol, sem nenhum tipo de proteção contra o calor. Marcas de agressão em seus corpos também foram notadas. Mas o que mais me revoltou: só recebiam alimento depois de suas apresentações. Passavam o dia inteiro sem comida, para que, à noite, executassem bem suas tarefas. Movida por uma indignação imensa, fui até o local onde o circo estava montado para ver com meus próprios olhos. As jaulas eram realmente minúsculas. E eles viviam ali, expostos ao sol o dia inteiro. Também eram transportados nessas jaulas. Imaginei o desconforto que deviam sentir, além do risco de sofrer uma desidratação. Eram dias de verão, de calor intenso. Por causa da denúncia feita, alguns empregados do circo esguichavam água na direção dos animais. Também haviam posto comida dentro das jaulas. Fiquei olhando para eles, pobres animais, sem direito a reclamar. Talvez as marcas de agressão em seus corpos tenham sido em virtude de uma rebeldia momentânea. Pensei nos escravos que também eram capturados e obrigados a trabalhar e que também apanhavam quando se rebelavam contra as condições em que viviam. Os escravos, pelo menos, tinham consciência da injustiça que sofriam. E os animais? Se são condicionados a partir de uma necessidade básica para sua sobrevivência, será que sabem o que estão fazendo? Olhei para os domadores que, de chicotes na mão, diziam à imprensa que os animais daquele circo sempre foram bem tratados. Bem tratados dentro daquelas jaulas? Apanhando para aprender a fazer gestos em troca de comida? Será que também eles sabem o que estão fazendo? |
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