Gatos e letras

Antes mesmo de eu ter gatos, já havia percebido que muitos escritores adoram esses animais. Uma de minhas escritoras preferidas, Lygia Fagundes Telles, teve vários gatos. Recentemente, descobri que o autor Aguinaldo Silva tem um gato chamado Jorge Tadeu. E há outros, muitos outros. Uns famosos, outros ainda pouco conhecidos. E eles adoram falar de seus bichinhos. Principalmente, transformá-los em personagens e tecer considerações filosóficas a respeito dessa ligação entre os gatos e a literatura. Isso me parecia exagero, mas depois que comecei a conviver com eles, também me envolvi nesse encantamento que os gatos exercem sobre nós. Mas não sei de onde vem esse fascínio e o porquê de tantos escritores terem esses felinos como animais de estimação.

Dizem que para se gostar de gatos, animais independentes por natureza, é preciso ter a alma livre, sem essa pretensão humana de se dominar a tudo e a todos. Mas serão os escritores pessoas de almas livres? Livres por serem capazes de deixar seus personagens tomarem conta de seus próprios textos? Suas criaturas dominarem seus próprios criadores? Já estou eu me enredando no mistério felino e tecendo considerações filosóficas a respeito.

Ou será que são os gatos que procuram os escritores? Há gatos que adoram livros e vivem em bibliotecas. Talvez a atração seja mútua. Assim como os gatos são ótimas companhias quando estamos escrevendo, porque ficam em silêncio, ora deitados no colo, ora deitados num cantinho perto de nós; eles também parecem gostar disso, de ficar horas no mesmo lugar, ouvindo o barulho do teclado, sabendo que estamos ali com eles. O mundo reduzido às letras e aos gatos.

Talvez esse seja o segredo: o ato de escrever é tão solitário que ao sabermos que nosso gato está junto a nós, adorando tudo isso, nos sentimos menos sozinhos. E não só pela presença física deles, mas também pelo seu amor livre e sincero.

Este texto foi escrito com a Kitty no meu colo.

Links para fotos de escritores com seus gatos: