| O futuro a Deus pertence |
Laura era o que podia se chamar de profissional em ascensão: trabalhava numa empresa de telecomunicações globalizada, seu salário era bom e o cargo promissor. Mas, vítima da suprema angústia feminina (não namorava havia dois anos), sentia-se só e incompleta. Não estava decepcionada com os homens, gostava de sair com eles, porém seus relacionamentos não iam além da amizade. A tal química ainda não acontecera, talvez pelos excessivos e exigentes pré-requisitos. Não queria apenas um namorado, mas um futuro marido. Afinal, já estava com 36 anos. Apesar de se considerar independente de conceitos antiquados e machistas, o fantasma da eterna titia começou a persegui-la. A irmã, casada e com dois filhos, parecia feliz. Então, por que não ter a sua própria família? Por mais independente que fosse, a necessidade de se prender às responsabilidades de esposa e mãe a incomodava profundamente. Impelida por esses pensamentos, como alguém à beira do precipício, resolveu tentar uma solução que jamais pensara em procurar. Pegou o endereço do lugar com uma colega de trabalho. Criou coragem, marcou um horário e foi, torcendo para que ninguém soubesse e confiando na discrição da colega. Era início de março, terça-feira, duas horas da tarde. Desceu do carro devagar, as pernas vacilantes, querendo voltar, mas havia chegado até ali, desistir era se perder no labirinto depois de ter encontrado a saída. Confirmou o número da casa. O que ia fazer não era contra lei alguma. Alguns acreditam, outros não, pensou, enquanto caminhava em direção ao portão. Certa vez leu numa revista que essas coisas só funcionavam se houvesse crença. Ela se sentia neutra, não acreditava, mas também não ignorava um certo poder sobrenatural existente sobre a vida. Se não funcionasse, mal não haveria de fazer. Observou a fachada, a casa pequena de pintura antiga lhe trouxe a impressão de honestidade. Certa de que só faria algo com a condição de não prejudicar ninguém, tocou a campainha. Uma senhora veio atendê-la. Era a imagem que esperava ver: negra, gorda, vestido branco rendado e voz grave. Dona Zoé? A mulher respondeu com a cabeça e pediu que entrasse e aguardasse na saleta. Um pouco fria a princípio, ela se mostrou mais simpática quando retornou. Ofereceu água e explicou seus métodos. Caso não fosse aquilo que desejava, podia ir embora sem nenhum problema. Laura, admirada com sua franqueza, decidiu continuar. As duas entraram numa sala maior. Ao centro, uma mesa quadrada coberta com uma toalha branca com bicos de renda e duas cadeiras de plástico, também brancas. Nas paredes de pintura descascada apenas um crucifixo enorme de madeira escura. A mulher se dizia vidente, via o futuro através do jogo de búzios. Também fazia simpatias e orações para se conseguir algo muito desejado, porém rejeitava qualquer pedido que fosse para prejudicar alguém. Quanto a isso, Laura se sentiu tranqüila. Não pertencia a nenhuma corrente religiosa, apenas seguia os ensinamentos aprendidos com seus antepassados no candomblé. Podia ao mesmo tempo usar um terço e invocar um orixá. Apenas a magia negra era condenada por ela. Sentaram-se. Dona Zoé falava pausadamente, olhando nos olhos, enquanto manuseava os búzios com a mão direita. Como uma roda-viva, jogava-os em cima da toalha, verificava suas posições na mesa e recolhia-os em seguida. Disse-lhe que se desejasse algo e isso fosse para o seu bem, Laura conseguiria o seu intento. Primeiro, mandou que lhe contasse tudo o que a estava incomodando e o que desejava que fosse mudado. Laura começou a falar e, de repente, como que hipnotizada pelo som dos búzios se chocando, estava tão íntima da mulher que parecia conhecê-la havia muito mais tempo. Contou sobre sua vida, sobre seu medo de ficar sozinha; sobre seus desejos, um futuro marido, uma família. E sobre o motivo que a trouxera até ali. Queria fazer uma simpatia, ou uma reza, ou o que fosse aconselhado para encontrar o tão procurado homem de sua vida. Dona Zoé recolheu mais uma vez os búzios e, desta vez de olhos fechados, sacudiu-os com as duas mãos para, em seguida, jogá-los na mesa. Abrindo os olhos, começou a decifrá-los. O homem que procurava viria no seu devido tempo, não necessitava fazer simpatia. Mas uma criança já estava a caminho. Você terá um filho ainda este ano, disse a vidente. Mas nem estou grávida, retrucou Laura. Não importa, você terá este filho até o final do ano. Laura rapidamente contou nove meses. Estava em março, realmente ainda havia tempo para engravidar. Mas não se convenceu. Nem namorado eu tenho! Eu já disse que não importa, seu homem virá no tempo certo. O que tiver que acontecer, será! E dona Zoé foi enfática. Ainda confusa, Laura tentou argumentar. Em vão. A vidente se mostrava sabedora do futuro: “Há coisas que não se pode mudar.” Aquela frase a irritou, logo ela, tão independente, não acreditaria numa bobagem dessas. O futuro é feito no dia a dia, um filho não é feito sozinho, pensava, indignada com o atrevimento daquela mulher em lhe dizer o que aconteceria em sua vida. Vou mostrar a ela que filho não nasce assim, do Espírito Santo! Levantou-se com rapidez, perguntando quanto era a consulta. Infelizmente, você não ficou satisfeita, por isso nada vou cobrar. Sem mais a dizer, Laura despediu-se com um cordial aperto de mão e saiu. Em casa, Laura se arrependia da experiência malsucedida. Agora era uma questão de honra não engravidar, pelo menos até o final do ano. Não teria esse filho de jeito nenhum. Em hipótese alguma. Os dias passavam e, como uma espiral que vai e volta, a questão não saía de sua mente. Podia até ter um filho, se encontrasse o tal homem procurado. Mas nem isso parecia possível (a esta altura já havia perdido as esperanças), quanto mais um filho e com prazo estipulado! Sentia-se culpada por ter-se sujeitado às adivinhações de futuro, logo ela que não acreditava nisso. Mas um fato a intrigava: por que a mulher não quisera fazer uma simpatia, ou algo deste tipo, para que ela encontrasse o homem de sua vida? A certeza da vidente de que ele apareceria começou a perturbá-la. Duvidava do método, mas a possibilidade de ela estar certa a animava. Quem sabe?, pensava, aceitando uma possível previsão. E sua vida seguiu-se assim por várias semanas. Ora acreditava que a mulher, por estar convicta demais, podia saber seu futuro, ora rejeitava qualquer manifestação de crença. Em junho, conheceu um homem e se apaixonou. Não demorou muito e começaram a namorar. Logo vieram as lembranças daquele dia na vidente. Fez as contas, mesmo que engravidasse agora, não nasceria até o fim do ano. A menos que fosse prematuro. Apavorou-se com a idéia. Não queria ter um filho sem conhecer o namorado direito. Queria mais tempo para se acostumar com a idéia. Queria se casar antes, pelo menos. Podia criar o filho sem problemas, seu emprego era ótimo, o salário continuava bom, mas ela não queria. Simplesmente não queria. Decidiu que evitaria, a todo custo, o filho profetizado. Não teria relações sexuais até iniciar o novo ano, mesmo que lhe causasse uma certa frustração. Agora acreditava nas profecias da vidente, mas, como um pescador em alto-mar que começa a ouvir trovoadas, tentaria remar contra o destino. Seis meses depois, com a chegada do Natal, a cidade estava mais bonita, cheia de luzes nas árvores e nas fachadas dos edifícios. Laura se sentia vitoriosa: faltava uma semana para acabar o ano e nenhum sinal de gravidez; havia cumprido seu intento. Mas naquela noite, véspera de Natal, as luzes não brilhavam como nas outras noites. Uma penumbra pairava sobre seu coração. Arrependia-se por ter teimado em não querer a criança. Por causa disso, privara-se de um envolvimento maior com o namorado que, felizmente, a compreendeu. Deixara de pensar em casamento ainda este ano, porque não queria o filho. Temia que ele pudesse nascer realmente antes do fim do ano, mas com tão pouco tempo de gestação, que não sobreviveria. A garganta apertava a verdade não dita. Podia ter tido um filho, não agora, mas no ano seguinte. Talvez a vidente só quisesse animá-la. Uma mistura fatal de crença e temor a fez lutar contra a vocação materna. Agora se sentia só e errada, como uma lâmpada roxa numa guirlanda de luzes brancas. Foi dormir pensando no filho que rejeitara. Na manhã seguinte, dia de Natal, acordou com um choro de bebê. Pensou estar ainda sonhando. Firmou a vista, olhou para o relógio ao lado da cama e ouviu o choro novamente. Correu para a sala, parou atrás da porta e esperou. O choro era real e vinha de fora. Ao abrir a porta, viu um bebê numa cesta. Pensou em quem teria feito isso e imediatamente as palavras da vidente vieram-lhe à mente: “Você terá um filho ainda este ano.” Como um romeiro diante da visão de Nossa Senhora, pegou a criança no colo e, naquele momento, decidiu seu futuro: “Não há nada que me tire esta criança!” Alguns meses depois, na pequena sala de espera, uma jovem aflita aguardava a chegada de dona Zoé. Com seu vestido branco rendado, a vidente retornou da cozinha e fez sinal para que a garota entrasse na sala maior. Explicou seus métodos e esperou uma resposta. A menina, de 15 anos apenas, mãos agitadas, foi logo dizendo: “Estou grávida, meu namorado me abandonou e minha família não pode saber. Vim aqui porque sei que a senhora resolve esse tipo de coisa.” Com o olhar carinhoso, dona Zoé, conhecida vidente e rezadora, explicou: “Abortos eu não faço, mas posso arrumar uma mãe para seu filho.” |
Copyright © Aline Ponce Cópia somente para fins de leitura. Para publicação ou reprodução contate a autora: contato@alineponce.com.br Versão original desta página: http://www.alineponce.com.br/futuro.html |