Aline Ponce
gatos e letras
O primeiro autógrafo a gente nunca esquece
 

Minha primeira noite de autógrafos! Estava felicíssima, ansiosíssima e nervosíssima. Está certo que a noite não era só minha, mas de mais cinco pessoas, as ganhadoras do concurso, que como eu foram premiadas com a publicação de seus contos em livro. Mas era minha primeira noite de autógrafos.

Passei a tarde toda me arrumando, na maior expectativa, imaginando como seria, quem iria, como estaria decorado o salão e todas essas bobagens. Estava pronta para ir, esperando minha mãe trancar a última porta, quando meu pai me perguntou se eu já sabia o que ia escrever na dedicatória. Passei os últimos quinze dias planejando a minha estréia e não pensei nesse detalhe! Como fui esquecer? A dedicatória nos livros, o meu autógrafo! O que eu ia escrever? O quê?

Meu pai, que já autografou mais de 50 livros numa noite, me deu a dica:

– Escreve um abraço.

– Só isso?

– E assina.

– Ah!

Não me convenci. Cheguei ao local do evento em pânico por não saber o que ia escrever. "Escreve um abraço e assina." O conselho do meu pai parecia muito vago. Era preciso escrever mais. O quê? Não sei. Mas era preciso. Ainda tive quase uma hora para pensar, até começar a entrega dos certificados.

Já sei! Escrevo o nome da pessoa vírgula, embaixo, espero que goste da leitura, ponto. Mais embaixo, um abraço vírgula meu nome. É isso!

Após a premiação, cada autor sentou atrás de uma mesa e ficou esperando seus convidados se aproximarem para receber as dedicatórias.

Tamborilei com a caneta, cuidadosamente escolhida, por longos três minutos até um amigo do meu pai se aproximar com a esposa e uma menininha.

Qual é o nome dele? Preciso saber para escrever no livro! Só o conheço pelo sobrenome. É assim que meu pai o chama. Mas não vou colocar o sobrenome na dedicatória! Preciso saber o primeiro nome. Mas não sei! Pergunto? Como vou perguntar? Como posso não saber o nome de um amigo do meu pai que freqüenta a minha casa desde que nasci?! Com que cara vou perguntar?

Ele parou em frente à mesa e esticou o livro para que eu o pegasse.

Como é o nome do homem? O nome do homem? Nome do ...

– É para a minha neta - e apontou para a garotinha.

Ufa!

– Como é o nome dela? - e olhei amavelmente para a menina de uns sete anos.

– Stephanie - disse a avó.

Stephanie - origem grega, significa vitoriosa.

Bonito nome, mas... Stephanie, Stephani, Stefanie, Ste...

– Como é que escreve?

– S T E P H F (F?, já não basta o PH?) A N N (de novo?) Y

Coitada da crian...

– I E (Hã? Ainda não terminou?!)

Escrevi: Stephfannyie, mas se me contassem, eu não acreditava.

Já ia colocando a vírgula, quando a avó continuou:

– Romagnolli Rodrigues Shatner.

Hã? Ah, o sobrenome. Não contaram pra velha que em dedicatória de livro não se coloca o nome completo?

– Como?

– Romagnolli (fácil, o nome pelo qual o avô da menina era conhecido e eu cansei de ver esse nome escrito na agenda de telefones do meu pai)

Rodrigues (mais fácil ainda, sem problemas) Shatner (chá o quê?)

– Soletra pra mim por favor?

– S H A T N E R (ah, igual ao William Shatner, o capitão Kirk)

Uau! Autógrafo interplanetário!

Ainda esperei mais um sobrenome, mas como a mulher parou de falar, continuei a dedicatória como eu tinha planejado.

Enquanto escrevia, a menina não tirava os olhos do papel. Um semblante reprovador.

Será que ela sabe ler? Será que escrevi o nome dela errado? Maldita hora que fui perguntar o nome dessa menina! Por que não fiz como meu pai falou? Um abraço e assina. E essa avó que fez questão do nome completo. Devia ter escrito Stephanie como eu sabia, vírgula e pronto. Tudo bem que eu não gostaria que escrevessem o meu nome errado. Mas meu nome é tão simples: Aline.

Aline - origem germânica, significa brilhante.

Lembrei-me então da minha mãe que se irritava profundamente quando alguém me chamava de Alice.

Alice - origem celta, significa doce.

Imagine a avó da menina, então?! Mãe duas vezes!

Terminei a dedicatória sob o olhar reprovador da garota, conferi o que havia escrito, voltei a ler o nome da menina e entreguei os pontos, ou melhor, o livro.

Agora já foi. Mas o que pode estar errado?

Despedi-me dos três e esperei a próxima vítima.

Enquanto isso, ainda vi a menina apontar para o que eu tinha escrito e cochichar no ouvido da avó.

Ah, não! O Rodrigues era com Z!


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