Amigas para sempre

Já ouvi dois tipos de comentário: um dizia que os melhores amigos são os que surgem no tempo da faculdade, pois têm em comum sonhos e medos do início da vida adulta; o outro dizia que não, que os melhores amigos surgem na infância, pois dividem conosco sonhos e medos do início da vida inteira.

Eu até hoje não sei quem tinha razão. É certo que minhas melhores amigas são da época do primário e ginásio, mas não desconsidero as amigas de faculdade, pelo contrário. Todas tiveram e têm sua importância. Mas há aquelas que passam por nossas vidas, não ficam. Vão embora e não sabemos porquê. Talvez uma briguinha boba, um mal-entendido. O tempo passa e esquecemos o motivo. Só a distância permanece.

Com minha amiga Raquel foi assim. Éramos grudadas na infância. Eu tinha sete anos, ela seis. Vizinhas, com apenas uma casa nos separando. Mas não parecia. Num dia ela vinha a minha casa, no outro eu ia à casa dela. Não estudávamos no mesmo colégio, por isso a saudade apertava e, toda tarde, estávamos juntas. Eu na casa dela, ela na minha, nós na pracinha. E isso durou até o início da adolescência. Sem entendermos direito o porquê, começamos a brigar, tanto pessoalmente, como pelo telefone. Até que paramos de nos falar. Não me lembro do motivo do último desentendimento, mas me recordo bem de ter inventado uma desculpa para não ir à casa dela, quando me ligou numa tentativa de reaproximação. Meses depois, arrependi-me, mas não tive coragem de lhe telefonar. Era muito orgulhosa.

O sinal fatal de nossa separação foi meu aniversário. Não a convidei para a festa. Tive vergonha e medo. Era estranho, já não me sentia mais íntima. Parecia que nunca tínhamos sido amigas. Menos de um mês depois, ela também não me convidou para comemorar seu aniversário.

Vivemos nossas adolescências separadas por uma casa. Quase nunca nos víamos. Duas vezes por ano era muito. Às vezes, coincidia de uma estar chegando e a outra saindo. Cumprimentávamos com um aceno de mão através do vidro do carro. E só. Mesmo assim, sabia de sua vida pela faxineira que nossas mães tinham em comum. Imagino que ela também soubesse da minha.

Um dia estava fechando o portão e a vi descendo a rua. Esperei que passasse em frente. Mas os anos de separação só permitiram um “Oi, tudo bem?” cordial. Ainda senti dois segundos de alguma hesitação, tanto minha como dela. Em vão. Ela seguiu para sua casa. Éramos vizinhas. Apenas uma casa nos separava. Mas não parecia.

Essa foi a última vez que nos falamos. No ano seguinte, sua família se mudou para um bairro distante. Sabia o endereço, escrito num papel pequeno que sua mãe me entregou dias depois da mudança, mas nunca a procurei. Uma noite a vi numa boate com o namorado. Estava de lado, não me viu. Acho. Podia ter me aproximado, mas tive medo que não me reconhecesse. Bobagem.

A mesma faxineira continuava me mantendo informada sobre sua vida. Eu gostava de saber notícias suas e fiquei contente quando a faxineira me contou que ela havia perguntado por mim. Era um sinal de que ela ainda se lembrava de mim. Nossas vidas continuaram distantes, porém agora eu a sentia mais próxima. Como se ela tivesse me perdoado por eu nunca mais ter lhe telefonado.

A última vez que a vi foi numa foto. A faxineira trouxe para me mostrar. Eram duas. Recordação oferecida pela mãe, que na verdade era madrasta. Sua mãe morreu num acidente de automóvel, quando ela ainda era pequena, antes de eu a conhecer. E Raquel morreu num cruzamento, esperando o sinal abrir, assassinada por um bandido que pretendia lhe assaltar. Poucos dias antes do Natal. Minha amiga não entrou no ano dois mil.

Lembro-me vagamente de um dia termos falado sobre o ano dois mil. É estranho quando perdemos alguém que foi tão presente na nossa infância. É como se perdêssemos parte de nossa memória. Mas me lembro de que, naquela época, pensávamos que seríamos amigas para sempre.