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Leitura recomendada

Resenhas de livros recomendados por Gabriel Perissé.

 

UMA GRAMÁTICA SEM ÓDIO

Napoleão Mendes de Almeida (há não muito falecido) foi talvez um dos gramáticos mais rabugentos que já tivemos no Brasil. Seus esclarecimentos e ensinamentos, por mais certeiros e justos que fossem (e eram), traziam em si um espírito de reprovação contínua. A palmatória, sempre pronta para funcionar, parecia ser sua companheira inseparável.

Graças ao movimento pendular da vida, coube à nova geração brasileira de estudantes conhecer um outro professor de português, simpático e bem-humorado, mas nem por isso menos exigente: Pasquale Cipro Neto, que recentemente lançou um livro recolhendo artigos seus sobre o nosso inculto e belo idioma.

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Talvez o maior mérito de Pasquale seja reconhecer implicitamente como correta a famosa frase de Adoniran Barbosa: "pra falar errado é preciso saber falar errado". Pasquale tem sensibilidade para discernir o que é norma culta, por um lado, e o que é vitalidade lingüística, quando se trata, por exemplo, de analisar as letras de um Chico Buarque ou de um Lobão, e manifestações verbais do povão.

Claro, seu papel é separar o joio do trigo, mas não o faz de cara amarrada, xingando o joio.

Também não é do seu estilo valorizar demais a terminologia gramatical, embora nos ensine o que é o quê.

A prática de professor em cursos, palestras, e depois na televisão e nas redações de jornais, lhe deu uma capacidade de falar bem sem falar empolado. Num dos capítulos desse pequeno livro, começa assim, ao falar da diferença entre xeque e cheque: "Eta duplinha danada!" E em outros momentos utiliza expressões coloquiais como "cá entre nós", "é aí que a roda pega", "até aí, tudo bem".

Além das letras da MPB, Pasquale está atento ao mundo do futebol, como um "lugar" de acontecimentos lingüísticos a ser analisados. Um gramático que gosta de ouvir música popular brasileira e estar por dentro do futebol é de fato um gramático da hora... e nos liberta um pouco daquela dependência, hoje impensável, dos autores clássicos... menos ainda de Camões e Pe. Antonio Vieira, embora ler esses dois gênios da língua não faça mal a ninguém.

Pasquale é fundamentalmente um profissional sensato, que reconhece não caber "a um gramático castrar hábitos lingüísticos diferentes dos que prega a norma", mas "ressaltar que, em certos casos, o conhecimento e o emprego da norma culta são desejáveis e imprescindíveis".

É isso.

Inculta & bela, Publifolha, 1999, 149 páginas.

Gabriel Perissé - perisse@uol.com.br


Gabriel Perissé é escritor, poeta e criador da Escola de Escritores - http://www.escoladeescritores.org.br

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