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Leitura recomendada

Resenhas de livros recomendados por Gabriel Perissé.

 

O PRESÍDIO QUE VIROU LIVRO

Nada melhor que um médico-escritor para fazer uma radiografia literária. Estação Carandiru, do Dr. Drauzio Varella, traz esse mapa físico, médico e humano do maior presídio brasileiro.

A Casa de Detenção de São Paulo é, aos olhos do Dr. Drauzio, um microcosmo, uma microssociedade, em que o ser humano continua a lutar pela liberdade, continua exercendo a solidariedade, valorizando a propriedade privada, trabalhando e transgredindo, matando e morrendo, amando e sofrendo, rezando e mentindo, brincando e temendo, reclamando justiça e odiando-a.

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Com a delicadeza de quem tocou a chaga e limpou-a, mesmo sem poder curá-la, o autor apresenta-nos personagens como o Sem-Chance, Seu Jeremias, Pirulão (grande negociador), Seu Valdomiro, Mário Cachorro, Roberto Carlos (com uma Nossa Senhora Aparecida tatuada no peito), o enfermeiro Lula, Bandeco, Filósofo (o grande estelionatário), Santão, os travestis Zizi, Veronique, Leidi Dai, Margô Suely, todo um mundo com suas regras, hierarquias e aventuras.

Com o equilíbrio de quem não pretende atacar ou defender, o autor sabe descobrir os lances trágicos e cômicos desse mundo entre quatro paredões, como o episódio de fuga em que um presidiário obeso entalou na boca do túnel e impediu que dezenas de companheiros escapassem. O apelido que recebeu não poderia ter sido outro: Rolha.

Com a argúcia de um sociólogo, o autor registra mais do que pressupõe. Comenta, por exemplo, o respeito dos detentos pelos companheiros de xadrez que aderiram ao grupo dos crentes. Respeito que se traduz em cobrança de coerência. Se o crente sai da linha que ele mesmo escolheu, apanha: "— Quer ser crente, nós respeitamos a caminhada dele, mas não pode tirar uma para cima da gente. A cara dele é passar o dia rezando para Deus proteger nós, ladrões."

O drama da aids e da tuberculose acentua o drama da insegurança física, da morte dormindo na cela ao lado. O universo marginal não sofre apenas de doenças morais. As doenças do corpo agravam a condição de banidos/bandidos. E o autor confessa que sua vocação de médico encontrou nesse ambiente chance de rejuvenescer-se.

O livro não é panfletário ou lamentoso, mas comove. Comove pelo realismo. E é também uma obra literária. Se o escritor é quem nos leva para um universo especial, Dr. Drauzio Varella conseguiu fazê-lo. Entrar nesse livro é sentir a porta pesada do Carandiru fechar-se atrás de nós.

 

Estação Carandiru, Companhia das Letras, 1999, 295 páginas.

Gabriel Perissé - perisse@uol.com.br


Gabriel Perissé é escritor, poeta e criador da Escola de Escritores - http://www.escoladeescritores.org.br

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